O Pai-Nosso e a Vida de Oração
A Oração do Senhor — o resumo de todo o Evangelho — e o caminho de rezar na vida
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O Pai-Nosso e a Vida de Oração
A Oração do Senhor — o resumo de todo o Evangelho — e o caminho de rezar na vida
«Senhor, ensina-nos a orar.»
— Lucas 11,1
Antes de começar
Entre todas as orações do mundo cristão, uma ocupa um lugar que nenhuma outra pode ocupar. Não foi composta por nenhum santo nem por nenhuma geração de fiéis: foi ensinada pelo próprio Jesus. Nasceu de um pedido simples feito pelos discípulos — «Senhor, ensina-nos a orar» — e, dessa resposta, veio o Pai-Nosso. A Tradição a chama, com toda a razão, de «Oração do Senhor».
Estas linhas percorrem o Pai-Nosso por inteiro, e com ele a vida de oração que o cristão é chamado a cultivar. Primeiro, o que é rezar — na definição de Teresinha, no coração inquieto de Agostinho, na aliança de Deus com o homem. Depois, por que o Pai-Nosso é «o resumo de todo o Evangelho» e o que significa ousar chamar Deus de «Pai», e dizer «nosso» e não «meu». Em seguida, cada uma das sete petições, uma a uma. E, ao fim, as três formas de oração, as cinco expressões, o combate da oração — distração, secura, desânimo — e as pistas concretas para uma vida de oração diária.
I. O que é a oração
Antes de aprender a rezar o Pai-Nosso, é preciso compreender o que é rezar. O Catecismo abre o tratado da oração com uma definição de Santa Teresinha do Menino Jesus:
«Para mim, a oração é um impulso do coração, é um simples olhar lançado para o Céu, é um grito de reconhecimento e de amor, tanto no meio da tribulação como no meio da alegria.»
— Santa Teresinha; cf. CIC 2558
A oração é, antes de um dever, um movimento do coração que se volta para Deus. Santo Agostinho desce à raiz dessa inquietação: «Fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração anda inquieto enquanto não repousa em Ti». A oração nasce porque o homem foi criado para Deus e só n'Ele encontra descanso. Mas há aqui um mistério que o Catecismo faz questão de recordar: na oração, Deus é sempre o primeiro.
«Quer o homem se dê conta disso ou não, a oração é o encontro da sede de Deus com a nossa sede. Deus tem sede de que nós tenhamos sede d'Ele.»
— CIC 2560
Não é o homem que começa: é Deus que chama, e a oração é resposta. A oração é, enfim, aliança e comunhão. É aliança, porque se dá entre Deus e o homem em Cristo; é comunhão, porque pela oração se entra na vida da Santíssima Trindade (CIC 2564-2565). Rezar não é falar ao vazio nem recitar palavras no ar: é dirigir-se a Alguém que ama, que conhece pelo nome e que espera.
II. O Pai-Nosso, a Oração do Senhor
São Lucas narra que, «estando Jesus a orar num certo lugar, quando terminou, um dos seus discípulos pediu-lhe: Senhor, ensina-nos a orar» (Lc 11,1). Da resposta de Cristo a esse pedido nasce o Pai-Nosso. Por isso a Tradição a chama a Oração do Senhor (CIC 2765): é d'Ele que vem, e é Ele mesmo o Mestre.
O Evangelho a transmite em duas formas: a de São Mateus, com sete petições, dentro do Sermão da Montanha (Mt 6,9-13); e a de São Lucas, mais breve, com cinco (Lc 11,2-4). A liturgia da Igreja consagrou a forma de Mateus, que se reza todos os dias.
A Tradição reúne sobre esta oração duas afirmações que convém guardar. Tertuliano, já no século III, chamou-a «o resumo de todo o Evangelho» (CIC 2761): nela está condensado, em poucas palavras, tudo o que Cristo veio ensinar e dar. E Santo Tomás de Aquino acrescenta que ela é «a mais perfeita das orações»:
«Nela não só pedimos tudo o que podemos justamente desejar, mas ainda na ordem em que convém desejá-lo. De modo que esta oração não só nos ensina a pedir, mas forma também todo o nosso afeto.»
— Santo Tomás de Aquino; cf. CIC 2763
O Pai-Nosso não é apenas uma lista de pedidos: é uma escola que educa o coração a querer o que Deus quer.
III. Ousar dizer «Pai nosso»
A novidade imensa desta oração está já na primeira palavra. Dirigir-se a Deus como «Pai» não era, para o homem antigo, algo óbvio: é uma ousadia que só se tornou possível porque o Filho de Deus se fez homem e nos deu parte na sua própria filiação. Por isso o Catecismo fala do «atrevimento filial»:
«Este dom gratuito de adoção exige da nossa parte uma conversão contínua e uma vida nova.»
— CIC 2784
Só se pode chamar Deus de Pai porque, no Batismo, fomos feitos filhos no Filho; é o Espírito Santo quem clama no coração: «Abba, Pai!» (Rm 8,15; Gl 4,6). Igualmente decisivo é o pequeno «nosso». Não se diz «Pai meu», mas «Pai nosso». São Cipriano de Cartago, no século III, sublinhava: «A oração é pública e comum, e, quando oramos, não oramos por um só, mas por todo o povo, porque todo o povo somos um só». Ao dizer «nosso», reconhece-se que não se tem a Deus só para si: tem-se com todos os irmãos, e a oração arranca do egoísmo (CIC 2792).
Por fim, «que estais nos céus» não aponta para um lugar distante, mas para a majestade e a proximidade de Deus. «Esta expressão bíblica não significa um lugar, mas um modo de ser; não a distância de Deus, mas a sua majestade. O nosso Pai não está algures: está para além de tudo aquilo que d'Ele podemos conceber; está na sua santidade» (CIC 2794). E, ao mesmo tempo, está no coração dos justos, mais íntimo ao homem do que ele mesmo.
IV. A voz dos Padres e dos santos
Os Padres da Igreja comentaram o Pai-Nosso com uma veneração sem igual, vendo nele a síntese de toda a fé cristã.
«Esta oração não só nos ensina a pedir, mas é verdadeiramente o resumo de todo o Evangelho.»
— Tertuliano, De Oratione, 1 (séc. III)
«O Senhor deu-nos esta fórmula de oração como um resumo da doutrina celeste. Que oração pode ser mais espiritual do que aquela que nos foi dada por Cristo, por quem também nos foi enviado o Espírito Santo?»
— São Cipriano de Cartago, De Dominica Oratione, 2-3
«Percorre todas as palavras das santas orações, e não encontrarás, creio eu, nada que não esteja contido e encerrado na Oração do Senhor.»
— Santo Agostinho, Carta 130 a Proba, 12,22
Os três concordam: no Pai-Nosso nada falta e nada sobra. Quem aprende a rezá-lo com o coração aprende a rezar tudo. A mesma doutrina floresceu na experiência dos santos.
«A oração nada mais é, no meu entender, senão um tratar de amizade, estando muitas vezes a sós com quem sabemos que nos ama.»
— Santa Teresa de Ávila, Livro da Vida, 8,5
«Quando rezo o Pai-Nosso, esta só palavra Pai chega para me arrebatar.»
— Santa Teresinha do Menino Jesus
Para os santos, o Pai-Nosso nunca se gastou pela repetição: quanto mais o rezavam, mais nele descobriam. Era, ao mesmo tempo, a oração mais simples e a mais inesgotável.
V. O Magistério e o Catecismo
O Catecismo da Igreja Católica dedica ao Pai-Nosso a conclusão de toda a sua quarta parte, sobre a oração (CIC 2759-2865), reconhecendo-o como «a mais perfeita das orações» e o modelo de toda súplica cristã. Antes dele, os grandes catecismos da Igreja — desde o Catecismo Romano, nascido do Concílio de Trento — sempre o colocaram como coroamento do ensino sobre a oração.
A liturgia confirma esse lugar único: na Santa Missa, o Pai-Nosso é rezado por toda a assembleia depois da Oração Eucarística e antes da Comunhão, como preparação imediata para receber o Pão da vida. A Igreja ensina ainda que esta oração pertence de pleno direito a todos os batizados, e por isso a confia aos catecúmenos e aos recém-batizados como um tesouro.
CIC 2759-2760: o Pai-Nosso no Evangelho, segundo Mateus e Lucas, e a doxologia final. CIC 2761-2764: «resumo de todo o Evangelho» (Tertuliano) e «a mais perfeita das orações» (Santo Tomás). CIC 2777-2802: «ousar aproximar-se com toda a confiança», dizer «Pai nosso que estais nos céus». CIC 2803-2806: as sete petições — as três primeiras voltadas para a glória do Pai, as quatro seguintes para as necessidades humanas. CIC 2807-2854: cada petição explicada, uma a uma. CIC 2855-2856: a doxologia final.
VI. As sete petições, uma a uma
Depois da invocação — «Pai nosso que estais nos céus» —, seguem-se sete pedidos. As três primeiras olham para Deus e para a sua glória: o seu Nome, o seu Reino, a sua vontade. As quatro últimas apresentam a Deus as necessidades humanas: o pão, o perdão, a provação, o mal. É a ordem do amor: primeiro o Pai, depois os filhos.
A invocação — «Pai nosso que estais nos céus»
Não é ainda um pedido, mas o fundamento de todos. Só porque Ele é Pai e é nosso é que se ousa pedir. Toda a oração que se segue repousa nesta confiança filial (CIC 2777-2802).
1ª — «Santificado seja o vosso nome»
Não se pede que Deus se torne santo — Ele já o é —, mas que o seu Nome seja reconhecido como santo e glorificado por nós e por todos os homens. «Pedimos que este Nome seja santificado em nós que estamos n'Ele, mas também nos outros que a graça de Deus ainda espera» (CIC 2814). Esta santificação depende também da nossa vida: é pela santidade dos cristãos que o Nome de Deus é bendito ou blasfemado entre os homens.
2ª — «Venha a nós o vosso Reino»
Pede-se a vinda definitiva do Reino de Deus, pelo retorno de Cristo na glória, e ao mesmo tempo o seu crescimento hoje, nos corações e no mundo (CIC 2816-2821). É um pedido que compromete: quem reza «venha o vosso Reino» pede também para deixar Deus reinar em si, pela conversão e pela caridade.
3ª — «Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu»
A vontade do Pai é «que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade» (1Tm 2,4). Pede-se que essa vontade de salvação se cumpra, e pede-se a graça de a fazer nossa, unindo a vontade humana à de Cristo, que disse: «Faça-se a tua vontade e não a minha» (Lc 22,42). «No céu» é como os anjos e os santos a cumprem perfeitamente; pede-se que também na terra, em nós, seja assim (CIC 2822-2827).
4ª — «O pão nosso de cada dia nos dai hoje»
Entra-se nos pedidos pelas necessidades humanas. «Pão» significa primeiro o alimento necessário à vida — e, ao dizer «nosso», pede-se também pelos que têm fome, pois um só Pai não quer filhos esquecidos. Mas a Tradição sempre viu neste «pão de cada dia» também o Pão da Palavra de Deus e o Pão da Eucaristia, alimento sem o qual a alma morre (CIC 2828-2837). «Hoje» ensina a confiança: não acumular com ansiedade, mas pedir o de cada dia.
5ª — «Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido»
Esta petição é única, porque nela o próprio orante põe a condição. Pede perdão, mas na medida em que também perdoa. «Ora, este como não é único no ensinamento de Jesus... Não nos é possível perdoar se não formos nós próprios tocados pela misericórdia» (CIC 2842-2843). O perdão recebido e o perdão dado são inseparáveis: um coração fechado ao irmão fecha-se também à misericórdia de Deus (Mt 6,14-15). Rezar esta petição é, portanto, comprometer-se a perdoar.
6ª — «Não nos deixeis cair em tentação»
Aqui é preciso evitar um erro: Deus não tenta ninguém para o mal. São Tiago é claro: «Ninguém, quando é tentado, diga: É Deus que me tenta; pois Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta» (Tg 1,13). O que se pede é que Deus não permita entrar na tentação e que não deixe ceder a ela: «Pedimos que Ele não nos deixe tomar o caminho que conduz ao pecado» (CIC 2846-2849). É um pedido de vigilância e de discernimento, para não confundir a provação que faz crescer com a sedução que leva à queda.
7ª — «Mas livrai-nos do mal»
A última petição abraça todas as anteriores. «O Mal» não é aqui uma ideia abstrata, mas aquele que se opõe a Deus, «o Maligno, Satanás», e todos os males de que ele é causa e autor (CIC 2851-2854). Pede-se a libertação de todo mal — presente, passado e futuro — e a vitória final de Cristo. Nesta súplica a Igreja apresenta ao Pai a angústia do mundo inteiro e implora o dom da paz.
A doxologia — «Porque vosso é o reino, o poder e a glória para sempre»
A Igreja acrescenta às sete petições esta aclamação de louvor. Ela retoma as três primeiras petições — o Reino, o poder (a vontade) e a glória (o Nome) — e devolve tudo ao Pai, reconhecendo que só d'Ele vem o que se pediu (CIC 2855-2856). O «Amém» final, que significa «assim seja», sela a oração: faz própria, com toda a confiança, cada palavra que o Senhor ensinou.
VII. As formas de oração
A Tradição da Igreja distingue três grandes formas, ou modos, de rezar. Não se opõem nem se excluem: são degraus de uma mesma subida, e um mesmo cristão passa de uma a outra conforme o momento (CIC 2700-2719).
A oração vocal
É a oração feita com palavras, ditas ou cantadas — como o Pai-Nosso, a Ave-Maria, os salmos, as orações da Missa. Longe de ser inferior, é a forma mais acessível e a primeira que se aprende. «Porque somos corpo e espírito, experimentamos a necessidade de traduzir exteriormente os nossos sentimentos. É preciso rezar com todo o nosso ser» (CIC 2702-2703). O próprio Jesus rezou vocalmente, ensinando o Pai-Nosso e recitando os salmos. O essencial é que as palavras da boca sejam acompanhadas pela atenção do coração.
A meditação
Meditar é pensar orando: tomar um texto — sobretudo a Sagrada Escritura, mas também os escritos espirituais ou a vida dos santos — e, a partir dele, buscar compreender e deixar-se tocar. «A meditação põe em movimento o pensamento, a imaginação, a emoção e o desejo. Esta mobilização é necessária para aprofundar as convicções da fé, suscitar a conversão do coração e fortalecer a vontade de seguir Cristo» (CIC 2708). A leitura orante da Palavra (a antiga lectio divina) é a forma mais clássica de meditação.
A oração contemplativa
É a forma mais simples e a mais alta: um olhar de amor, em silêncio, sobre Deus. «A contemplação é o olhar da fé, fixado em Jesus. Eu olho-O e Ele olha-me, dizia ao seu santo Cura um camponês de Ars, em oração diante do sacrário» (CIC 2715). Aqui já se fala pouco: deixa-se Deus agir. É um dom, que se recebe na humildade e na pobreza do coração.
VIII. As expressões da oração
Além das formas, a oração tem também cinco grandes expressões, todas presentes, aliás, no próprio Pai-Nosso (CIC 2626-2643).
Bênção e adoração — a oração que responde ao dom de Deus louvando-O por ser quem é. Adorar é reconhecer-se criatura diante do Criador. É a primeira atitude de quem reza.
Petição — pedir. É a expressão mais espontânea, porque o homem se sabe pobre e dependente de Deus. O primeiro pedido deve ser sempre o perdão e a vinda do Reino; depois, com confiança de filhos, tudo o que é necessário.
Intercessão — pedir por outros. É a petição que se faz à maneira de Jesus, «o único intercessor junto do Pai em favor de todos os homens» (CIC 2634). Rezar pelos outros, mesmo pelos inimigos, é a marca de um coração que se parece com o de Deus.
Ação de graças — agradecer. «Dai graças em todas as circunstâncias» (1Ts 5,18). Todo acontecimento pode tornar-se ocasião de ação de graças, pois tudo é dom. A Eucaristia — que significa precisamente «ação de graças» — é o seu modelo supremo.
Louvor — a expressão mais desinteressada: louva a Deus não pelo que Ele dá, mas simplesmente porque Ele é. É a oração do céu, que já se começa na terra com o «glória» e o «aleluia».
IX. O combate da oração
A oração é também uma luta — contra o cansaço humano e contra o tentador, que faz tudo para afastar dela (CIC 2725-2745). Convém conhecer as dificuldades mais comuns, para não desanimar.
A distração
É a dificuldade mais frequente: a mente foge, pensa noutras coisas. Não se deve inquietar nem desistir. «A distração revela-nos aquilo a que estamos apegados, e esta tomada de consciência humilde diante do Senhor deve despertar o nosso amor preferencial por Ele» (CIC 2729). O remédio não é caçar as distrações uma a uma, mas voltar com paciência o coração para Deus, quantas vezes for preciso.
A secura
Há dias em que não se sente nada: a oração parece vazia, sem gosto. É a secura (ou aridez). Pode ser o momento em que a fé é mais pura, porque se reza não pelo que se sente, mas por amor. «É o momento da fé pura, que permanece fielmente junto de Jesus na agonia e no túmulo» (CIC 2731). Perseverar na secura vale mais do que muitas consolações.
O desânimo e a falta de fé
Às vezes deixa-se de rezar porque «não há tempo», ou porque se pensa que não adianta, que Deus não escuta. São tentações. Contra elas, vale a humildade, a confiança e a perseverança. A oração não falha; o que falha é a constância — e por isso se pede também a graça de rezar.
X. Pistas para uma vida de oração diária
A oração cresce como uma amizade: pela fidelidade dos pequenos encontros de cada dia, mais do que pelos grandes impulsos passageiros. Algumas pistas concretas ajudam.
Marcar uma hora. Escolher um momento fixo (de manhã, ao acordar; ou à noite, antes de dormir) e ser fiel a ele. Hora marcada é hora guardada; o que fica «para quando houver tempo» quase nunca acontece.
Um lugar e uma postura. Um canto tranquilo, um crucifixo ou uma imagem, ajudam o corpo a rezar com a alma. Ajoelhar-se, sentar-se com as costas direitas — o corpo também reza.
Começar pelo sinal da cruz e por uma oração conhecida. O Pai-Nosso, a Ave-Maria, um salmo. As palavras prontas abrem a porta para a oração do coração.
Ler um pouco do Evangelho. Alguns versículos por dia, lidos devagar (leitura orante), alimentam a oração o dia inteiro.
Rezar com as cinco expressões. Adorar, agradecer, pedir perdão, pedir pelos outros, pedir por si. É um roteiro simples para não ficar só nos pedidos.
O terço, rezado com atenção aos mistérios, é uma escola de meditação ao alcance de todos, e põe ao lado de Nossa Senhora, mestra de oração.
Oração do coração ao longo do dia. Pequenas jaculatórias — «Jesus, eu confio em Vós»; «Meu Deus, eu Vos amo» — santificam o trabalho e cumprem o «orai sem cessar» (1Ts 5,17).
Não desistir nos dias secos. O valor da oração não está no que se sente, mas na fidelidade. Perseverar é já rezar bem.
XI. Questões que atravessam qualquer reflexão sobre a oração
Se Deus já sabe do que se precisa, por que pedir?
Porque a oração não existe para informar Deus, mas para abrir o coração a recebê-Lo. «O nosso Pai sabe do que temos necessidade antes de Lho pedirmos» (Mt 6,8), mas quer que se peça, para que cresça o desejo e a confiança, e para que aquilo que se recebe seja acolhido como dom. Pedir não muda Deus: muda quem pede.
«Não nos deixeis cair em tentação» quer dizer que Deus tenta?
Não. Deus a ninguém tenta para o mal (Tg 1,13). A petição pede que Ele não permita que se ceda quando se é provado, e que dê força e discernimento para não tomar o caminho do pecado. Algumas traduções dizem, com o mesmo sentido, «não nos deixeis sucumbir à tentação».
Por que o perdão de Deus parece depender do perdão humano?
Porque a misericórdia recebida e a misericórdia dada são uma só corrente. Deus não nega o seu perdão; mas um coração que se recusa a perdoar fecha-se à misericórdia e não consegue recebê-la. Perdoar é abrir a mão para que Deus a possa encher de graça.
Rezar sempre as mesmas palavras não é cair na repetição que Jesus condenou?
Jesus condenou o «muito falar» dos que pensam ser ouvidos à força de palavras (Mt 6,7), não a oração feita com fé. O Pai-Nosso, rezado com o coração, nunca é vã repetição: é a mesma oração sempre nova, porque a cada vez é um filho que fala ao Pai. Decorá-lo é guardá-lo no coração para poder rezá-lo em toda hora.
Ao fim do caminho
Chegando ao fim deste percurso, uma certeza se impõe: o Pai-Nosso é, ao mesmo tempo, o resumo de todo o Evangelho e a escola em que se aprende a viver. Nele cabe tudo o que se pode esperar e tudo o que se precisa pedir. Rezá-lo com atenção é, no sentido mais verdadeiro, deixar que Cristo nos ensine a rezar — e, com isso, a viver.
Que o pedido antigo dos discípulos continue a ser o nosso: «Senhor, ensina-nos a orar». Quem assim pede, já começou a receber.
«Orai sem cessar.»
— 1 Tessalonicenses 5,17
Referências
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 1990. Passagens citadas: Mt 6,5-15; 6,7-8; 6,14-15; Lc 11,1-13; 18,1-8; 22,42; Jo 17; Rm 8,15.26-27; Gl 4,6; 1Ts 5,17-18; 1Tm 2,4; Tg 1,13.
IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2000. Números citados: 2558-2565; 2626-2643; 2697-2745; 2759-2865.
TERTULIANO. De Oratione, 1.
CIPRIANO DE CARTAGO, São. De Dominica Oratione, 2-3.
AGOSTINHO, Santo. Carta 130 a Proba, 12,22.
TOMÁS DE AQUINO, Santo. Suma Teológica, II-II, q. 83.
TERESA DE ÁVILA, Santa. Livro da Vida, 8,5; Caminho de Perfeição.
TERESINHA DO MENINO JESUS, Santa. Manuscritos Autobiográficos.
FRANCISCO DE SALES, São. Introdução à Vida Devota.