O Dízimo
A gratidão que se faz partilha — devolver a Deus o que d’Ele recebemos
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O Dízimo
A gratidão que se faz partilha — devolver a Deus o que d’Ele recebemos
«Honra ao Senhor com os teus bens e com as primícias de toda a tua renda.»
— Provérbios 3,9
Antes de começar
Falar de dízimo, no Brasil católico de hoje, costuma dividir corações. De um lado, há quem o veja como simples cobrança da Igreja, lembrança incômoda das pastorais que fazem contas; de outro, há quem o reduza a uma espécie de investimento mal disfarçado, promessa de retorno material a quem contribui. Nenhuma das duas visões bate com o que a Igreja ensina — e com o que a Escritura, há três mil anos, vem dizendo em palavras muito mais altas.
Estas linhas percorrem o dízimo por inteiro. Primeiro, o que ele é — a primícia, não a sobra; o reconhecimento de que Deus é o único Senhor dos bens e nós, administradores. Depois, o percurso bíblico, de Abraão a Malaquias e de Jesus à primeira comunidade cristã. Em seguida, a voz dos Padres e dos santos, do Magistério e do Catecismo. E, ao fim, como viver o dízimo na vida real — bens, tempo e talentos — sem cair no legalismo nem na «teologia da prosperidade».
I. O que é o dízimo
A palavra dízimo vem do latim decima, a «décima parte». Na sua origem bíblica, designava a parte dos frutos, dos rebanhos e dos ganhos que o fiel separava e oferecia a Deus em sinal de que tudo vinha d'Ele. Mas o número — um décimo — nunca foi o essencial. O essencial sempre foi o seu significado: o dízimo é a primícia, isto é, a primeira e melhor parte, posta de lado para Deus antes de tudo o mais. «Honra ao Senhor com os teus bens e com as primícias de toda a tua renda» (Pv 3,9).
Oferecer a Deus a primícia, e não as sobras, é um ato profundamente espiritual: é dizer, com as mãos e não só com a boca, que Deus vem em primeiro lugar. Por isso o dízimo nunca foi pensado como uma esmola que se dá quando sobra, mas como um ato de culto e de justiça, ordenado e consciente. É a gratidão que deixa de ser apenas sentimento e se faz gesto concreto.
II. De Deus vem tudo: somos administradores, não donos
O dízimo só se entende à luz de uma verdade que está na raiz de toda a fé: Deus é o Criador e o único Senhor de todos os bens. «Do Senhor é a terra e tudo o que ela contém» (Sl 24,1). Nada do que o homem possui é absolutamente seu: a vida, a saúde, o tempo, a inteligência, o trabalho e os seus frutos são, antes de tudo, dons recebidos. Diante de Deus, o homem não é proprietário absoluto, mas administrador (ecônomo) dos bens que lhe foram confiados, e deverá um dia prestar contas do uso que deles fez (cf. Lc 16,1-13; Mt 25,14-30).
Daqui nasce um princípio que a Igreja chama o destino universal dos bens: «Deus destinou a terra e tudo o que ela contém ao uso de todos os homens e de todos os povos» (CIC 2402). A propriedade privada é legítima e necessária, mas não é absoluta: sobre ela pesa uma «hipoteca social», porque os bens são dados para servir também ao próximo (CIC 2403-2406). O dízimo é a tradução prática e serena dessa verdade: devolve-se a Deus uma parte, reconhecendo que se recebeu o todo, e põe-se essa parte a serviço da comunidade e dos que têm menos.
III. O dízimo na História da Salvação
O dízimo não é uma invenção recente nem uma imposição administrativa: percorre toda a Escritura. Já no início do Gênesis, Abraão, vitorioso, entrega a Melquisedec, sacerdote do Deus Altíssimo, «o dízimo de tudo» (Gn 14,18-20) — gesto que a Carta aos Hebreus recordará como figura do sacerdócio de Cristo (Hb 7,1-10). Logo depois, Jacó faz a Deus o seu voto: «De tudo o que me deres, certamente te darei o dízimo» (Gn 28,22).
Com a Lei de Moisés, o dízimo torna-se instituição do povo de Israel: «Todo dízimo da terra, tanto das sementes como dos frutos, pertence ao Senhor» (Lv 27,30). Ele sustentava os levitas, que não tinham herança de terra porque se dedicavam ao serviço do Templo (Nm 18,21-24), e provia também ao estrangeiro, ao órfão e à viúva (Dt 14,28-29). O dízimo era, assim, ao mesmo tempo culto a Deus e caridade para com o pobre.
O ponto mais forte do Antigo Testamento está no profeta Malaquias, que repreende o povo por reter o que devia a Deus e faz um convite único:
«Trazei todos os dízimos à casa do tesouro... e provai-me nisto, diz o Senhor dos exércitos, se eu não vos abrir as comportas do céu e não derramar sobre vós bênção sem medida.»
— Malaquias 3,10
É preciso ler esta promessa com fé reta: a «bênção» que Deus garante ao coração generoso não é a riqueza material — pensá-lo seria cair na falsa «teologia da prosperidade» —, mas a liberdade de quem já não é escravo do dinheiro e a alegria de quem confia no Pai que provê.
IV. Jesus e o dízimo do coração
Jesus não aboliu o dízimo, mas levou-o à sua verdade mais profunda. Aos fariseus, que pagavam o dízimo até das ervas da horta mas esqueciam o essencial, Ele diz: «Pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e desprezais o que é mais importante na Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Era isto que devíeis praticar, sem omitir aquilo» (Mt 23,23). Ou seja: o gesto exterior vale, mas só tem sentido quando nasce de um coração justo e misericordioso.
No Evangelho, a medida deixa de ser a letra e passa a ser o amor. Jesus admira não quem dá muito, mas quem dá com o coração inteiro: diante da viúva pobre que deposita duas pequenas moedas, declara que ela «deu mais do que todos», porque «todos deram do que lhes sobrava; ela, porém, deu tudo o que tinha para viver» (Lc 21,1-4). E São Paulo fixa a regra de ouro da partilha cristã:
«Cada um dê conforme o propôs no seu coração, não com tristeza nem por obrigação, porque Deus ama a quem dá com alegria.»
— 2 Coríntios 9,7
A primeira comunidade cristã viveu isso de modo radiante: «Todos os que tinham crido estavam unidos e tinham tudo em comum... repartiam com todos, segundo a necessidade de cada um» (At 2,44-45). E o próprio Senhor deixou a palavra que resume tudo: «Há mais felicidade em dar do que em receber» (At 20,35). O dízimo cristão é herdeiro desta alegria: não uma perda, mas um modo de participar da generosidade de Deus.
V. A voz dos Padres e dos santos
Os Padres da Igreja pregaram sem cansar sobre o dever da partilha, lembrando que o supérfluo do rico pertence, por justiça, ao pobre.
«Não dar aos pobres uma parte dos próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida. Não são nossos, mas deles, os bens que retemos.»
— São João Crisóstomo, Homilia sobre Lázaro, II,5; cf. CIC 2446
«Não dás ao pobre o que é teu; apenas lhe restituis o que é seu. Pois aquilo que foi dado em comum para o uso de todos, tu o usurpas só para ti. A terra foi dada a todos, e não apenas aos ricos.»
— Santo Ambrósio, De Nabuthe, 12,53
Para os Padres, dar não é diminuir-se: é entrar na lógica de Deus, que dá sempre primeiro. O que se partilha com o pobre não se perde — guarda-se no Céu. A mesma doutrina brilhou na vida dos santos.
«Comecei a olhar como esterco tudo aquilo que antes me parecia doce, e o Senhor conduziu-me entre os pobres.»
— São Francisco de Assis, Testamento
«Não é quanto damos, mas quanto amor pomos no dar. Dai até que doa.»
— Santa Teresa de Calcutá
São Francisco de Assis é o testemunho maior: ao renunciar a tudo, nada lhe faltou, porque tinha a Deus. O dízimo, à sua escala humilde, é um pequeno passo nesse mesmo caminho de confiança.
VI. O Magistério e o Catecismo
A Igreja inclui o sustento das suas necessidades entre os cinco mandamentos da Igreja. O quinto manda: «ajudar a Igreja nas suas necessidades». O Catecismo explica: «Os fiéis têm ainda o dever de prover às necessidades materiais da Igreja, cada um segundo as suas possibilidades» (CIC 2043). O dízimo é a forma concreta, ordenada e constante de cumprir esse dever — não uma sugestão piedosa, mas parte da vida do cristão que pertence a uma comunidade.
O Magistério ensina ainda que o amor aos pobres é inseparável da fé: «Quando damos aos pobres as coisas indispensáveis, não lhes fazemos uma liberalidade pessoal: antes lhes devolvemos o que é seu. Cumprimos um dever de justiça, mais do que um ato de caridade» (cf. CIC 2446, citando São Gregório Magno). A oferta recolhida na Missa, aliás, é uma das práticas mais antigas da Igreja: desde o início, os fiéis traziam o pão, o vinho e os seus bens para o altar e para os necessitados (CIC 1351).
Números-chave do Catecismo: CIC 2043 — o quinto mandamento da Igreja. CIC 2402-2406 — o destino universal dos bens; somos administradores, não donos absolutos. CIC 2443-2449 — o amor aos pobres, a esmola e as obras de misericórdia. CIC 2446 — dar ao pobre é um dever de justiça. CIC 1351 — a coleta e a oferta na Eucaristia, uso antiquíssimo da Igreja em favor do culto e dos necessitados. CIC 952 — a comunhão dos bens: o cristão administra o que tem como algo comum a todos.
VII. O dízimo na vida cristã
O dízimo é oferta, não imposto
A Igreja não cobra o dízimo como um imposto, nem o condiciona aos sacramentos. Ele é livre e consciente: nasce da fé e da gratidão, não do medo ou da pressão. Quem dá por obrigação externa ainda não entendeu o dízimo; quem dá por amor já começou a viver o Evangelho. «Não com tristeza nem por obrigação, porque Deus ama a quem dá com alegria» (2Cor 9,7).
Quanto dar?
O «décimo» é uma referência bíblica preciosa, que ajuda a dar de modo sério e proporcional, e não apenas do que sobra. Mas o Novo Testamento não fixa uma porcentagem rígida: pede que cada um dê «conforme o propôs no seu coração» e «segundo as suas possibilidades» (CIC 2043). O importante é que seja uma parte decidida, regular e significativa da renda — um compromisso pensado diante de Deus, e não uma quantia qualquer deixada ao acaso.
Dízimo de bens, de tempo e de talentos
Embora o dízimo seja, em sentido próprio, a partilha dos bens materiais, a mesma atitude de gratidão pede que se partilhe também o tempo e os talentos. De nada vale contribuir com dinheiro e negar à comunidade as próprias mãos e o próprio tempo; e nem todos podem dar muito dinheiro, mas quase todos podem oferecer serviço, oração e dons pessoais. As três dimensões completam-se e nascem da mesma raiz: devolver a Deus, com amor, o que d'Ele se recebeu.
Para onde vai o dízimo
O dízimo sustenta a vida concreta da Igreja: a manutenção do templo e do culto, as obras de evangelização e de catequese, o sustento dos que se dedicam ao serviço pastoral e, de modo muito especial, a ajuda aos pobres. Contribuir é participar ativamente da missão: a comunidade não se mantém sozinha, e cada dizimista torna-se corresponsável por tudo o que ali se realiza em nome de Cristo.
VIII. Questões que atravessam qualquer reflexão sobre o dízimo
O dízimo é obrigatório? Quem não dá peca?
Ajudar nas necessidades da Igreja é um mandamento da Igreja (CIC 2043), e portanto um dever real do cristão, «cada um segundo as suas possibilidades». Mas a Igreja não o impõe como uma taxa fixa nem o liga aos sacramentos. O dízimo obriga em consciência como expressão de justiça e de amor, não como um tributo cobrado à força. Quem, podendo, se recusa a contribuir, falta a um dever; quem realmente não pode não é condenado — Deus olha o coração, como no caso da viúva.
Calcula-se sobre o salário bruto ou líquido?
Não há regra canônica que o determine: o dízimo não é um cálculo contábil, mas um gesto do coração. O critério é a sinceridade diante de Deus: cada um decide, com consciência reta, uma parte justa e proporcional da sua renda, de modo que seja um compromisso verdadeiro e não apenas simbólico. O importante não é acertar uma conta, mas dar com generosidade e constância.
E quem é pobre ou está desempregado?
Ninguém é obrigado a dar o que não tem. A própria Lei previa que os pobres recebessem do dízimo, e não que o pagassem sob aperto. Quem passa por dificuldade pode oferecer o dízimo de tempo e de oração, e contribuir com bens quando e quanto puder. O Evangelho da viúva mostra que Deus mede o amor, não o valor: duas moedinhas dadas com fé valeram mais que grandes somas.
Dar o dízimo traz prosperidade financeira?
Esta é uma distorção que a fé católica rejeita. A chamada «teologia da prosperidade» — que promete riqueza material a quem contribui — contradiz o Evangelho, que proclama felizes os pobres e adverte contra servir a Deus e ao dinheiro (Mt 6,24). A «bênção sem medida» de Malaquias (Ml 3,10) deve entender-se à luz de Cristo: é a liberdade interior, a paz, a alegria de confiar no Pai e o tesouro no Céu. Dá-se o dízimo por amor e gratidão, não como um investimento que renderá lucro.
Ao fim do caminho
Chegando ao fim deste percurso, uma certeza se impõe: o dízimo não é imposto, é oração — oração feita com as mãos. Quando Abraão separa a décima parte diante de Melquisedec, quando Jacó faz o seu voto, quando a viúva deposita duas moedinhas no cofre do Templo, quando a primeira comunidade põe tudo em comum, é sempre a mesma atitude que se repete: reconhecer que o dom vem de Deus e devolver, com alegria, uma parte do que foi recebido.
Rezar o Pai-Nosso é pedir que a vontade de Deus se cumpra. Dar o dízimo é fazer essa mesma oração acontecer no concreto da vida — na manutenção do templo, no sustento dos que servem a Igreja, no pão que chega aos pobres. Entre o «venha o teu Reino» e o «o pão nosso de cada dia nos dai hoje» cabe perfeitamente, e com alegria, a oferta que cada batizado é chamado a fazer.
«Há mais felicidade em dar do que em receber.»
— Atos 20,35
Referências
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 1990. Passagens citadas: Gn 14,18-20; 28,22; Lv 27,30; Nm 18,21-24; Dt 14,22-29; Pv 3,9; Ml 3,8-10; Sl 24,1; Mt 6,24; 23,23; 25,14-30; Lc 6,38; 16,1-13; 21,1-4; At 2,44-45; 20,35; 2Cor 8-9; Hb 7,1-10.
IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2000. Números citados: 952; 1351; 2043; 2402-2406; 2443-2449; 2446.
JOÃO CRISÓSTOMO, São. Homilias sobre Lázaro, II,5.
AMBRÓSIO, Santo. De Nabuthe, 12,53.
AGOSTINHO, Santo. Sermões sobre o dízimo e a esmola (Sermão 85 e outros).
GREGÓRIO MAGNO, São. Regra Pastoral.
FRANCISCO DE ASSIS, São. Testamento; Regra.
TERESA DE CALCUTÁ, Santa. Palavras e escritos sobre a caridade.