O Credo — Profissão de Fé
O que é o Credo
O Credo — Profissão de Fé
O que é professar a fé, a história do Credo, os dois grandes Símbolos e sua ligação com os dogmas
"Creio, Senhor! Vem em auxílio da minha falta de fé!"
— Marcos 9,24
Antes de começar
Poucas orações da Igreja carregam tanto peso em tão poucas linhas quanto o Credo. Em pouco mais de uma centena de palavras, ele guarda tudo o que a fé cristã tem a dizer sobre Deus, sobre o homem e sobre o sentido último da história. Rezá-lo é atravessar, num só fôlego, a criação, a encarnação, a cruz, a ressurreição, o dom do Espírito, a Igreja, o perdão e a vida eterna. Não é fórmula qualquer: é a senha pela qual os cristãos se reconhecem, e o alicerce sobre o qual toda a vida crente se apoia.
Estas linhas percorrem o Credo por inteiro. Primeiro, o que significa "professar a fé" e como se distinguem fé, credo, símbolo e dogma. Depois, a história — das fórmulas do Novo Testamento à regra da fé dos primeiros séculos, dos Símbolos batismais aos Concílios de Niceia e Constantinopla que fixaram o Credo que ainda hoje rezamos na Missa. Em seguida, a voz dos Padres, do Magistério, do Catecismo e da Escritura. Por fim, os dois grandes Símbolos da Igreja, artigo por artigo — o dos Apóstolos e o Niceno-constantinopolitano —, e o mapa que liga cada expressão do Credo aos dogmas centrais da fé cristã.
I. O que é professar a fé
Fé, Credo, Símbolo, Dogma
A fé é a resposta livre do ser humano a Deus que se revela e se dá a conhecer. Por ela, "o homem se abandona total e livremente a Deus" (cf. Dei Verbum, 5). É, ao mesmo tempo, dom de Deus — uma graça — e ato humano, que envolve a inteligência e a vontade (CIC 26; 142-143; 154). Crer é ato pessoal ("eu creio") e, inseparavelmente, eclesial: ninguém crê sozinho, cremos com toda a Igreja e sustentados por ela (CIC 166-167).
Quatro palavras se entrelaçam quando se fala de profissão de fé, e vale distingui-las. Credo — do latim credo, "eu creio" — é a primeira palavra da profissão de fé em latim e acabou dando nome a toda a oração. Símbolo — do grego symbolon, "sinal de reconhecimento" — passou a designar, entre os cristãos, o resumo, a "senha" da fé, pela qual os fiéis se reconhecem; o Símbolo recolhe as verdades essenciais em que cremos (CIC 187-188). Dogma é uma verdade contida na Revelação, que a Igreja define e propõe de modo obrigatório como revelada por Deus (CIC 88-90); os artigos do Credo condensam os principais dogmas da fé cristã.
"O Símbolo é o selo espiritual, é a meditação do nosso coração e como que uma guarda sempre presente; é, sem dúvida alguma, o tesouro da nossa alma."
— Santo Ambrósio, Explanatio Symboli, 1; cf. CIC 197
II. A história do Credo
O Credo não foi redigido de uma só vez, num único dia. Ele nasceu da vida da Igreja: da profissão de fé feita no Batismo e da "regra da fé" transmitida desde os Apóstolos. Conhecer essa história ajuda a rezá-lo com mais amor.
As raízes bíblicas e apostólicas
Já no Novo Testamento encontramos fórmulas breves de fé, verdadeiros embriões do Credo. "Jesus é o Senhor" (Rm 10,9; 1Cor 12,3). A fórmula que São Paulo diz ter "recebido" e "transmitido" — "Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia" (1Cor 15,3-5). O mandato de batizar "em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo" (Mt 28,19). É dessa ordem trinitária do Batismo que nasce a estrutura do Credo — três partes, uma para cada Pessoa divina.
A "regra da fé" e os símbolos batismais (séc. II-III)
Nos primeiros séculos, cada Igreja professava a fé no Batismo em forma de perguntas e respostas: "Crês em Deus Pai todo-poderoso? — Creio." Os Padres chamam esse resumo comum de "regra da fé" (regula fidei). Santo Irineu de Lião e Tertuliano testemunham uma mesma fé apostólica professada em toda a Igreja. Entre esses símbolos batismais, o mais importante é o Símbolo Romano (Symbolum Romanum), usado no Batismo em Roma, do qual deriva o nosso Símbolo dos Apóstolos.
A "lenda dos Apóstolos" e o nome do Símbolo
Uma piedosa tradição, recolhida por Rufino de Aquileia (séc. IV-V), narra que os doze Apóstolos, antes de se dispersarem pelo mundo, teriam composto juntos o Símbolo, cada um contribuindo com um artigo. Historicamente, o texto não foi redigido por eles num só ato; mas o nome "Símbolo dos Apóstolos" é justo, porque ele "é o resumo fiel da fé dos Apóstolos" e é "o antigo símbolo batismal da Igreja de Roma" (CIC 194).
Do Símbolo Romano ao texto atual
A partir do antigo Símbolo Romano, o Símbolo dos Apóstolos foi ganhando sua forma praticamente definitiva entre os séculos VI e VIII. Ao seu lado, os Concílios de Niceia (325) e de Constantinopla (381) fixaram o grande Símbolo conciliar — o Niceno-constantinopolitano —, que rezamos na Missa. Os dois Símbolos não se opõem: exprimem a mesma e única fé da Igreja (CIC 195-197).
Por que os Concílios: o contexto das heresias
Nos primeiros séculos, alguns começaram a ensinar erros sobre quem é Jesus e sobre o Espírito Santo. Para guardar a fé recebida dos Apóstolos e dizer com clareza aquilo que sempre acreditou, a Igreja reuniu-se em concílio. Os Símbolos conciliares não "inventaram" doutrinas novas: apenas exprimiram, com palavras mais precisas, a mesma fé de sempre, diante de quem a deturpava.
A heresia mais grave foi o arianismo. Ário, um sacerdote de Alexandria, ensinava que o Filho não é verdadeiro Deus, mas a primeira e mais alta das criaturas — "houve um tempo em que Ele não existia". Isso destruía o coração da fé: se o Filho não é Deus, não fomos salvos por Deus. Foi para responder a esse erro que se reuniu o Concílio de Niceia.
O Concílio de Niceia (325)
Foi o primeiro Concílio ecumênico (universal) da Igreja, reunido no ano 325 na cidade de Niceia, com cerca de 318 bispos, muitos deles ainda marcados pelas perseguições. Contra o arianismo, o Concílio professou que o Filho é "Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai" — em grego, homoousios, isto é, "da mesma substância" do Pai. Grande defensor dessa fé foi Santo Atanásio de Alexandria. Niceia também fixou critérios para a data da Páscoa.
"Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai."
— do Símbolo, definição de Niceia, 325
Em 2025 celebrou-se o 1700º aniversário de Niceia. O Papa Leão XIV recordou a data na Carta Apostólica In unitate fidei (2025), e a Comissão Teológica Internacional publicou o documento Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador, mostrando a atualidade permanente desta profissão de fé.
O Concílio de Constantinopla (381)
Foi o segundo Concílio ecumênico, reunido em 381, com cerca de 150 bispos. Respondeu a novos erros, sobretudo dos que negavam a divindade do Espírito Santo (os "pneumatômacos" ou macedonianos). O Concílio completou o Símbolo de Niceia, desenvolvendo o artigo sobre o Espírito Santo — "Senhor que dá a vida... que com o Pai e o Filho é adorado e glorificado" — e acrescentando o que professamos sobre a Igreja, o Batismo e a vida futura. Foram decisivos os Padres Capadócios: São Basílio Magno (De Spiritu Sancto), São Gregório Nazianzeno e São Gregório de Nissa.
Desses dois Concílios resulta o Credo que rezamos na Missa: o Símbolo Niceno-constantinopolitano. Ele "tira a sua grande autoridade do fato de resultar dos dois primeiros Concílios ecumênicos" (CIC 195).
III. A voz dos Santos Padres
Desde os primeiros séculos, os Padres guardaram e explicaram a fé recebida no Batismo. Vale ouvir alguns deles, que iluminam por ângulos distintos o mesmo Credo.
Santo Irineu de Lião (séc. II) — a regra da fé, uma só em toda a Igreja
Irineu ensina que a Igreja, espalhada pelo mundo inteiro, guarda a fé recebida dos Apóstolos como se habitasse uma só casa: crê e transmite tudo isso "de modo unânime, como se possuísse uma só alma e um só coração". A fé é uma só, professada em toda parte.
"Tendo recebido esta pregação e esta fé, a Igreja, embora dispersa pelo mundo inteiro, guarda-as com cuidado, como habitando uma só casa."
— Santo Irineu, Contra as Heresias, I, 10, 1-2
Tertuliano (séc. II-III) — a formulação da regula fidei
Tertuliano é um dos primeiros a expressar por escrito a "regra da fé": crer no único Deus criador, em seu Filho Jesus Cristo, nascido da Virgem, crucificado, ressuscitado e que há de vir, e no Espírito Santo. Reconhece-se aí, com clareza, o esboço do Credo.
Santo Ambrósio (séc. IV) — guardai o Símbolo
Bispo de Milão, Ambrósio explica o Símbolo aos que vão ser batizados (Explanatio Symboli) e pede que o guardem no coração como um tesouro e uma proteção. É dele a bela imagem, já citada na abertura, do Símbolo como "selo espiritual" da alma.
Santo Agostinho (séc. IV-V) — crê para compreender
Agostinho prega vários sermões sobre o Símbolo (De symbolo ad catechumenos) e ensina a relação entre fé e razão: começamos crendo e, crendo, chegamos a compreender. Não se exige entender tudo para crer; a fé abre o caminho da inteligência.
"Crê para compreenderes, e compreende para creres."
— Santo Agostinho, Sermão 43, 7-9
Santo Atanásio de Alexandria (séc. IV) — a divindade do Filho
Presente em Niceia ainda jovem, Atanásio tornou-se o incansável defensor da fé nicena contra o arianismo, sofrendo vários exílios. Ensina que só sendo verdadeiro Deus o Filho pode divinizar-nos: "Ele se fez homem para que nós fôssemos feitos Deus (filhos de Deus)." A célebre fórmula sintetiza toda a teologia da redenção que Niceia salvaguardou.
São Basílio Magno (séc. IV) — a divindade do Espírito Santo
No tratado Sobre o Espírito Santo, Basílio mostra que o Espírito recebe a mesma adoração e glória do Pai e do Filho, sendo verdadeiro Deus. Esse ensinamento está na raiz da expressão do Credo: "com o Pai e o Filho é adorado e glorificado".
São Gregório Nazianzeno (séc. IV) — a Trindade
Chamado "o Teólogo", Gregório pregou em Constantinopla a fé na Trindade: um só Deus em três Pessoas iguais e distintas — Pai, Filho e Espírito Santo. É um dos grandes mestres do dogma trinitário, e ao seu lado atua São Gregório de Nissa, autor da Grande Catequese.
IV. O Magistério
Ao longo dos séculos, a Igreja velou pela integridade da fé professada, fixando os Símbolos, definindo dogmas e reafirmando o valor do Credo.
Os primeiros Concílios: Niceia, Constantinopla, Éfeso, Calcedônia
Diante de erros que ameaçavam a fé, a Igreja reunida em concílio precisou expressar com mais precisão o que sempre acreditou. Niceia (325) e Constantinopla (381) fixaram o grande Símbolo conciliar. Éfeso (431), contra Nestório — que separava em Cristo o homem e o Deus —, definiu que Maria é verdadeiramente Theotokos, "Mãe de Deus", porque aquele que ela gerou segundo a carne é o próprio Filho de Deus (CIC 466; 495). Calcedônia (451), contra os que negavam a plena humanidade de Cristo, definiu que n'Ele há duas naturezas — divina e humana — "sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação", numa só Pessoa, o Filho de Deus (CIC 467).
O Concílio Vaticano II — a Revelação e a fé (Dei Verbum)
A Constituição Dogmática Dei Verbum (1965) ensina que Deus se revela por amor e chama o homem à comunhão consigo; a fé é a resposta plena e livre a essa Revelação, acolhida na Igreja e transmitida pela Escritura e pela Tradição (DV 2; 5). É a moldura teológica dentro da qual todo Credo, antigo ou novo, se compreende hoje.
O "Credo do Povo de Deus" e o Ano da Fé
Em 1968, o Papa São Paulo VI proclamou uma Solene Profissão de Fé, conhecida como "Credo do Povo de Deus", reafirmando com vigor a fé da Igreja. Em 2011, o Papa Bento XVI convocou o Ano da Fé (carta Porta Fidei), convidando a redescobrir e professar o Credo como "porta da fé" que introduz na vida com Deus. E, em 2025, o Papa Leão XIV, na Carta Apostólica In unitate fidei, celebrou os 1700 anos de Niceia, recordando que o Credo continua sendo o coração comum da fé cristã.
V. O Catecismo
A profissão da fé ocupa toda a Primeira Parte do Catecismo, que se organiza justamente em torno do Símbolo dos Apóstolos, dividido em doze artigos. Vale conhecer as referências para consulta direta.
CIC 185-197 — os Símbolos da fé: o que é o Credo, por que se chama "Símbolo" e quais os principais Símbolos da Igreja. CIC 194 — o Símbolo dos Apóstolos "é o resumo fiel da fé dos Apóstolos" e "o antigo símbolo batismal da Igreja de Roma". CIC 195 — o Símbolo Niceno-constantinopolitano "tira a sua grande autoridade do fato de resultar dos dois primeiros Concílios ecumênicos" (325 e 381). CIC 166-184 — "Eu creio" e "Nós cremos": a fé como ato pessoal e, ao mesmo tempo, da Igreja inteira. CIC 88-90 — o que são os dogmas da fé e sua ligação orgânica entre si. CIC 198-1065 — o Catecismo comenta toda a fé seguindo, um a um, os doze artigos do Símbolo.
VI. A Sagrada Escritura
O Credo não acrescenta nada à Palavra de Deus: recolhe e resume a fé que já está na Escritura. Cada artigo tem raízes bíblicas, e a própria estrutura trinitária do Símbolo nasce do mandato do Batismo. Algumas passagens são o berço do Credo.
A fé no Deus único — "Ouve, ó Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor" (Dt 6,4). A confissão de Jesus como Senhor e Filho — "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo" (Mt 16,16); "Jesus é o Senhor" (Rm 10,9). A fórmula trinitária do Batismo — "Batizai-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo" (Mt 28,19). O núcleo pascal da fé — "Cristo morreu pelos nossos pecados... foi sepultado... ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras" (1Cor 15,3-5).
A divindade do Filho — "No princípio era o Verbo... e o Verbo era Deus" (Jo 1,1); "Eu e o Pai somos um" (Jo 10,30). A Encarnação — "O Verbo se fez carne e habitou entre nós" (Jo 1,14). A divindade do Espírito — o Espírito "sonda tudo, até as profundezas de Deus" (1Cor 2,10-11); é o Paráclito enviado pelo Pai (Jo 14,26). Toda expressão do Credo, quando aprofundada, encontra sua origem viva num versículo — e essa é a garantia mais firme de que a fé professada é a mesma fé revelada.
VII. O Símbolo dos Apóstolos, artigo por artigo
Rezemos primeiro o texto completo e, em seguida, percorramos o que a Igreja professa em cada artigo:
"Creio em Deus Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra. E em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu à mansão dos mortos, ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus, está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos. Creio no Espírito Santo, na santa Igreja católica, na comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna. Amém."
— Símbolo dos Apóstolos
A tradição distingue doze artigos, agrupados em três partes, segundo as três Pessoas divinas: o Pai e a criação; o Filho e a redenção; o Espírito Santo e a obra da santificação (CIC 190-191).
Primeira parte: o Pai e a obra da criação
1. Creio em Deus Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra
Professamos um só Deus, que é Pai — fonte e origem de tudo — e todo-poderoso, cuja onipotência é universal, amorosa e misteriosa (revela-se sobretudo na criação e na misericórdia). Cremos que Ele criou, do nada e por amor, tudo o que existe, "o céu e a terra", isto é, o mundo visível e o invisível; e que a criação é boa. Distingue-se sempre o Criador da criatura (CIC 198-421, esp. 268-278 sobre a onipotência e 279-324 sobre a criação).
Segunda parte: o Filho e a obra da redenção
2. E em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor
O centro da fé é Jesus Cristo: "Jesus" significa "Deus salva"; "Cristo" quer dizer "ungido" (Messias). É o Filho único de Deus, gerado, não criado; e é "nosso Senhor" (Kyrios), título divino. Nele confessamos verdadeiro Deus e verdadeiro homem (CIC 422-455).
3. Que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria
Professamos o mistério da Encarnação: o Filho de Deus assumiu nossa carne pela ação do Espírito Santo no seio da Virgem Maria, verdadeira Mãe de Deus e sempre Virgem. Deus se fez verdadeiramente homem, sem deixar de ser Deus (CIC 456-511).
4. Padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado
A fé afirma a realidade histórica e salvadora da Paixão: Jesus sofreu de verdade, sob um governador conhecido, foi crucificado, morreu e foi sepultado. Sua morte na cruz é o sacrifício que nos reconcilia com Deus (CIC 571-630).
5. Desceu à mansão dos mortos, ressuscitou ao terceiro dia
Cristo morreu realmente e, na sua alma unida à divindade, foi ao lugar dos mortos (a "morada dos mortos") para levar a salvação aos justos que o haviam precedido — não ao inferno dos condenados. Ao terceiro dia ressuscitou, verdadeira e corporalmente: a Ressurreição é o coração da nossa fé (CIC 631-658).
6. Subiu aos céus, está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso
Quarenta dias depois, Cristo subiu ao céu em sua humanidade glorificada. "Sentado à direita do Pai" significa que participa, como homem, da glória e do poder divinos, e intercede por nós (CIC 659-667).
7. Donde há de vir a julgar os vivos e os mortos
Cremos que Cristo voltará em glória, no fim dos tempos, para julgar os vivos e os mortos e levar à plenitude o Reino de Deus. Este artigo sustenta a nossa esperança e o nosso compromisso de vida (CIC 668-682).
Terceira parte: o Espírito Santo e a obra da santificação
8. Creio no Espírito Santo
Professamos a fé na terceira Pessoa da Santíssima Trindade, o Espírito Santo, Senhor que dá a vida, que age na Igreja e nos santifica. A sua divindade é solenemente confessada no Símbolo de Constantinopla, que veremos a seguir (CIC 683-747).
9. Na santa Igreja católica, na comunhão dos santos
Cremos na Igreja, obra do Espírito, santa por sua origem e sua meta, e católica (universal). Cremos também na comunhão dos santos: a união, em Cristo, dos fiéis da terra, das almas do purgatório e dos bem-aventurados do céu, na partilha dos bens espirituais (CIC 748-975).
10. Na remissão dos pecados
Confessamos que Deus perdoa os pecados: pelo Batismo, uma vez, somos lavados de todo pecado; e, para os pecados cometidos depois, Cristo deixou à Igreja o sacramento da Penitência (CIC 976-987).
11. Na ressurreição da carne
Cremos que, no último dia, todos ressuscitarão corporalmente, cada um com o seu próprio corpo transformado, para a vida ou para a condenação. A fé cristã não é só na imortalidade da alma, mas na ressurreição de todo o ser humano (CIC 988-1019).
12. E na vida eterna. Amém
Esperamos a vida eterna: a comunhão plena e definitiva com Deus na visão beatífica. O "Amém" final — palavra hebraica que significa firmeza, verdade — sela toda a profissão: "assim é, assim seja", é a adesão pessoal a tudo o que se acaba de professar (CIC 1020-1065).
VIII. O Credo Niceno-constantinopolitano, artigo por artigo
Rezemos primeiro o texto que se professa na Missa e, em seguida, percorramos o seu sentido:
"Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis. Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai. Por Ele todas as coisas foram feitas. E por nós, homens, e para a nossa salvação, desceu dos céus. E se encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem. Também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado. Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras; e subiu aos céus, onde está sentado à direita do Pai. E de novo há de vir, em sua glória, para julgar os vivos e os mortos; e o seu reino não terá fim. Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, e procede do Pai e do Filho; e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado: Ele que falou pelos profetas. Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica. Professo um só batismo para remissão dos pecados. E espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir. Amém."
— Símbolo Niceno-constantinopolitano — o Credo da Missa
O Pai, um só Deus e Criador
"Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis." Professamos um só Deus (monoteísmo), Pai e Criador de tudo, do mundo material e do espiritual (os anjos). É a mesma fé do primeiro artigo do Símbolo dos Apóstolos, agora ainda mais explícita quanto à unicidade de Deus.
O Filho, consubstancial ao Pai
"Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos... gerado, não criado, consubstancial ao Pai. Por Ele todas as coisas foram feitas." Aqui está o coração de Niceia: o Filho é eterno ("antes de todos os séculos"), gerado e não criado, verdadeiro Deus como o Pai, da mesma substância. Por Ele — o Verbo — tudo foi criado (Jo 1,1-3).
"E por nós, homens, e para a nossa salvação, desceu dos céus. E se encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem." Professamos a Encarnação: o Filho de Deus se fez verdadeiramente homem, sem deixar de ser Deus, nascido da Virgem Maria, a Mãe de Deus. Na Missa, faz-se uma inclinação profunda nestas palavras, e uma genuflexão no Natal e na Anunciação, em adoração ao mistério.
"Também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado. Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras; e subiu aos céus, onde está sentado à direita do Pai. E de novo há de vir, em sua glória, para julgar os vivos e os mortos; e o seu reino não terá fim." A Paixão, a morte, a Ressurreição, a Ascensão e a volta gloriosa de Cristo. A expressão "o seu reino não terá fim" professa que o Reino de Cristo é eterno.
O Espírito Santo, Senhor que dá a vida
"Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, e procede do Pai e do Filho; e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado: Ele que falou pelos profetas." Este é o grande acréscimo de Constantinopla: o Espírito Santo é "Senhor" e "dá a vida", isto é, é verdadeiro Deus, e por isso recebe a mesma adoração do Pai e do Filho. "Falou pelos profetas": é o mesmo Espírito que inspirou a Escritura.
Sobre "procede do Pai e do Filho": o texto de 381 dizia "procede do Pai". Mais tarde, a Igreja no Ocidente acrescentou "e do Filho" (em latim, Filioque), para afirmar que o Espírito procede do Pai por meio do Filho, sendo Pai e Filho um único princípio. É um ponto de diálogo respeitoso com as Igrejas do Oriente (CIC 246-248).
A Igreja, o Batismo e a vida futura
"Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica. Professo um só batismo para remissão dos pecados. E espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir. Amém." Professamos a Igreja com as suas quatro notas; o único Batismo, que perdoa os pecados; e a esperança da ressurreição e da vida eterna. O "Amém" final sela toda a profissão.
IX. A ligação dos artigos do Credo com os dogmas
Cada artigo do Credo condensa um ou mais dogmas — verdades reveladas por Deus e definidas pela Igreja. Este é o mapa que liga o que se reza ao que a Igreja ensina, indicando o Concílio e o número do Catecismo para consulta.
"Creio em um só Deus" → o dogma da unidade de Deus (o monoteísmo cristão) (CIC 200-202). "Pai... Filho... Espírito Santo" → o dogma da Santíssima Trindade: um só Deus em três Pessoas distintas e iguais (CIC 253-256). "Gerado, não criado, consubstancial ao Pai" → o dogma da divindade do Filho e da sua consubstancialidade com o Pai (Niceia, 325; CIC 242).
"E se encarnou... e se fez homem" → o dogma da Encarnação e da união das duas naturezas, divina e humana, numa só Pessoa (Calcedônia, 451; CIC 464-469). "No seio da Virgem Maria" → o dogma de Maria, Mãe de Deus (Theotokos), e da sua virgindade (Éfeso, 431; CIC 495). "Foi crucificado... padeceu e foi sepultado" → o dogma da redenção pela morte de Cristo na cruz (CIC 571-618). "Ressuscitou ao terceiro dia" → o dogma da Ressurreição do Senhor, fundamento da nossa fé (CIC 638-658).
"Há de vir... julgar os vivos e os mortos; e o seu reino não terá fim" → os dogmas da segunda vinda, do juízo final e do Reino eterno de Cristo (CIC 668-679). "Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida... adorado e glorificado" → o dogma da divindade do Espírito Santo (Constantinopla, 381; CIC 245; 685). "Igreja una, santa, católica e apostólica" → o dogma da Igreja e das suas quatro notas (CIC 811-812). "Um só batismo para remissão dos pecados" → os dogmas do Batismo e da remissão dos pecados (CIC 977-980; 1213-1216). "A ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir" → os dogmas da ressurreição da carne e da vida eterna (CIC 988-1019; 1020-1050).
"Os dogmas são luzes no caminho da nossa fé; iluminam-no e tornam-no seguro."
— CIC 89
X. Questões que atravessam qualquer reflexão sobre o Credo
Algumas perguntas voltam sempre, quando se aprofunda o tema do Credo. Vale enfrentá-las de frente.
Se o Credo não foi escrito pelos Apóstolos, por que se chama "dos Apóstolos"?
Porque ele é o resumo fiel da fé que os Apóstolos pregaram e transmitiram (CIC 194). O nome honra a origem apostólica do seu conteúdo, e não uma autoria literal, palavra por palavra. É a mais antiga profissão batismal da Igreja de Roma.
Qual a diferença entre o Símbolo dos Apóstolos e o Credo rezado na Missa?
O Símbolo dos Apóstolos é o antigo credo batismal romano, mais breve; o Niceno-constantinopolitano é o credo dos concílios (325 e 381), mais desenvolvido sobre Cristo e o Espírito Santo, e é o que geralmente rezamos na Missa. Os dois exprimem a mesma e única fé (CIC 195-197).
A Igreja "inventou" novos dogmas nos Concílios?
Não. Os Concílios não criam verdades novas: guardam e exprimem com mais clareza a fé recebida dos Apóstolos, diante de erros que a ameaçavam. O dogma é o desabrochar fiel do que já estava contido na Revelação (CIC 88-90).
O que significa "consubstancial ao Pai"?
Significa que o Filho é da mesma substância (natureza) do Pai — verdadeiro Deus, e não uma criatura. É a resposta de Niceia ao arianismo. Se o Filho não fosse Deus, não teríamos sido salvos por Deus (CIC 242; 465).
O que quer dizer "desceu à mansão dos mortos"?
Que Cristo morreu de verdade e, com a alma unida à sua divindade, foi ao lugar dos mortos para abrir o céu aos justos que morreram antes d'Ele (CIC 632-635). Não se trata do inferno dos condenados, mas da morada dos mortos que aguardavam o Redentor.
O que é o "Filioque" (procede do Pai e do Filho)?
É a expressão acrescentada no Ocidente ao artigo do Espírito Santo, afirmando que Ele procede do Pai e do Filho como de um único princípio. Os cristãos do Oriente conservam a fórmula original "do Pai"; trata-se de um ponto de diálogo, não de negação da mesma fé (CIC 246-248).
Por que se faz uma inclinação ao dizer "e se fez homem"?
Para adorar o mistério da Encarnação — Deus que se fez um de nós. Nas solenidades do Natal e da Anunciação, faz-se até uma genuflexão nessas palavras, tão grande é o mistério que se professa.
Professar a fé é apenas recitar palavras?
Não. É aderir pessoalmente a Deus e a tudo o que Ele revelou, deixando que essa fé molde a vida inteira (CIC 150; 1064). Rezar o Credo é renovar, com toda a Igreja, a aliança do Batismo.
É preciso "entender tudo" para crer?
Não. A fé busca a compreensão: começa-se crendo e cresce-se entendendo (Santo Agostinho). Os mistérios de Deus superam a nossa razão, mas não a contradizem (CIC 158). Como o pai do Evangelho, pode-se sempre rezar: "Creio, Senhor! Vem em auxílio da minha falta de fé!" (Mc 9,24).
Ao fim do caminho
Chegando ao fim deste percurso, uma verdade se destaca sobre todas as outras: o Credo não é uma lista de verdades avulsas que decoramos; é a narrativa mais compacta da história de Deus com o homem. Deus Pai que cria, Filho que assume nossa carne, morre e ressuscita por nós, Espírito que dá a vida e reúne a Igreja, e no fim a promessa da vida eterna. Tudo o que a fé cristã tem a dizer sobre a origem e o destino do mundo cabe nesse arco.
Rezar o Credo, portanto, não é obrigação recitativa. É recolocar-se, cada vez, dentro dessa história que atravessa vinte séculos e continua viva. É dizer, com todos os cristãos de todos os tempos e lugares, o mesmo "Creio" — pessoal, mas nunca solitário; livre, mas sustentado por uma tradição que o precede e o guarda. Cada vez que essas palavras são pronunciadas, a Igreja se reconhece nelas, e quem as reza reencontra a própria identidade batismal.
Quando a fé se acomoda, e a rotina rouba o sentido das palavras que professamos, resta sempre a oração do pai do Evangelho — súplica humilde e verdadeira que pode nascer de qualquer coração:
"Creio, Senhor! Vem em auxílio da minha falta de fé!"
— Marcos 9,24
Referências
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 1990. Passagens citadas: Dt 6,4; Mt 16,15-16; Mt 28,19; Mc 9,24; Jo 1,1-3.14; Jo 10,30; Jo 14,26; Rm 10,9-10; 1Cor 2,10-11; 1Cor 12,3; 1Cor 15,3-5; Fl 2,6-11; 2Tm 1,12; Hb 11,1; 1Pd 3,18-19. Texto em: flammacordis.com.br.
IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2000. Números citados: 26; 88-90; 142-197; 198-421; 200-202; 242-248; 253-256; 422-682; 464-469; 495; 571-679; 683-1065; 685; 811-812; 977-1050.
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