O Advento e o Natal
A espera e a vinda do Senhor — e o 'sim' de Maria que nos abriu o Natal
Equipe Flamma Cordis · imagem criada por IA
O Advento e o Natal
A espera e a vinda do Senhor — e o 'sim' de Maria que nos abriu o Natal
«Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.»
— Lucas 1,38
Antes de começar
Três mistérios se encadeiam neste tempo. O Advento, com sua natureza, sua estrutura e sua formação histórica. O Natal, como celebração do mistério central da Encarnação. E o «sim» de Maria, o Fiat sem o qual nada disto teria acontecido. São três momentos de uma só história: a espera, a vinda e o consentimento que a tornou possível.
Estas linhas percorrem os três por inteiro. Primeiro, o Advento — não como contagem regressiva, mas como escola do desejo e tempo da tríplice vinda. Depois, o Natal — não como aniversário, mas como a admirável troca em que Deus se faz pequeno para elevar o pequeno. Em seguida, a Anunciação e o Fiat de Maria, a nova Eva. Ao fim, a voz dos Padres e dos santos, o Magistério, o Catecismo, as questões recorrentes e a tradição viva da Coroa, das Novenas e do Presépio, que a Igreja e a família usam para fazer esse tempo entrar pela porta de casa.
I. O Advento — a espera que atravessa toda a história
O que é o Advento
A palavra Advento vem do latim adventus — «vinda», «chegada» —, tradução do grego parusía, que designava a chegada solene de um rei ou de uma autoridade. Aplicada a Cristo, a palavra diz tudo: o Advento é o tempo em que a Igreja se dispõe a acolher a vinda do seu Rei e Senhor. E, por ser esse acolhimento o princípio de tudo, é com o Advento que se abre o ano litúrgico.
Mas seria pobre reduzir o Advento a uma contagem regressiva para o dia 25 de dezembro. O que a liturgia faz, nestas quatro semanas, é reabrir no coração a longa espera de toda a humanidade. Antes de Cristo, o mundo inteiro foi um imenso Advento: os patriarcas, os profetas e os justos de Israel aguardaram o Messias prometido, e a sua súplica rompe ainda hoje nas leituras do tempo — «Oh! Se rasgasses os céus e descesses!» (Is 63,19). A Igreja faz suas essas palavras e, com o último versículo da Bíblia, clama: «Maranatá — Vem, Senhor Jesus!» (Ap 22,20; cf. 1Cor 16,22). O Advento é, portanto, a escola em que se reaprende a desejar — e quem não deseja, não acolhe.
Daí o seu duplo caráter, que é a chave de todo o tempo. As Normas Universais o definem assim: «O Advento tem um duplo caráter: é tempo de preparação para as solenidades do Natal, em que se recorda a primeira vinda do Filho de Deus aos homens, e é, ao mesmo tempo, o tempo em que, por esta recordação, se orientam os espíritos para a expectativa da segunda vinda de Cristo no fim dos tempos. Por estas duas razões, o Advento é tempo de piedosa e alegre expectativa» (Normas, 39).
As três vindas de Cristo
A tradição espiritual, de modo especial São Bernardo, percebeu que entre as duas vindas visíveis — a de Belém e a da glória — existe uma terceira, oculta e atual. «Conhecemos uma tríplice vinda do Senhor», ensina ele: a primeira, na carne e na fraqueza; a última, na glória e na majestade; e, no meio delas, uma vinda «em espírito e poder», pela qual Cristo vem agora, em silêncio, ao coração de quem o acolhe. «A primeira e a última vindas são manifestas; esta do meio é oculta.» É precisamente essa vinda intermédia que o Advento quer favorecer: não basta recordar que Cristo veio, nem apenas esperar que voltará — é preciso deixá-lo vir hoje, pela graça, à vida concreta. Preparar o Natal é abrir-lhe a porta no presente.
A estrutura do Advento: duas etapas e as Antífonas «Ó»
O tempo do Advento espelha, na sua própria organização, esse duplo caráter, desdobrando-se em dois momentos de tom distinto. Do 1º domingo até 16 de dezembro, a liturgia volta o olhar sobretudo para a vinda gloriosa de Cristo no fim dos tempos. Ressoa a voz dos profetas, especialmente Isaías, com as suas visões de paz e de salvação, e o chamado à vigilância. De 17 a 24 de dezembro, a preparação torna-se imediata e se concentra no nascimento do Senhor. A cena desloca-se dos profetas para os protagonistas do Natal: Maria, José, João Batista. São os dias das grandes Antífonas «Ó».
Essas Antífonas maiores «Ó», cantadas ao Magnificat nas Vésperas de 17 a 23 de dezembro, são sete invocações que chamam o Messias pelos títulos que a Escritura lhe dá: Ó Sabedoria, Ó Adonai (Senhor), Ó Raiz de Jessé, Ó Chave de Davi, Ó Sol nascente (Oriente), Ó Rei das nações e Ó Emanuel. Cada uma recolhe uma promessa do Antigo Testamento e a apresenta a Cristo como seu cumprimento. E há nelas um segredo: as iniciais latinas desses títulos, lidas de trás para frente, formam ERO CRAS, que significa «amanhã estarei [convosco]» — como se, à súplica da Igreja («Vem!»), o próprio Senhor respondesse: «Amanhã estarei aí.»
O Advento tem ainda as suas três figuras, que a liturgia propõe como mestres da espera. O profeta Isaías ensina a esperar com fé, anunciando de longe o Emanuel, «Deus conosco». São João Batista ensina a esperar com conversão, preparando os caminhos e endireitando as veredas do coração. E a Virgem Maria ensina a esperar com amor, trazendo já no seio Aquele que todos aguardavam. Isaías, João e Maria: a profecia, a penitência e a maternidade — três modos de acolher o Senhor que vem.
Formação e história do Advento
O Advento não existiu desde o princípio da Igreja: foi-se formando entre os séculos IV e VI, e a sua história explica a riqueza que hoje tem. Diferentemente da Páscoa e do Natal, que nasceram da própria celebração do mistério, o Advento nasceu como tempo de preparação — e, no início, de preparação ao Batismo.
Surgiu primeiro nas Igrejas da Hispânia e da Gália, a partir do século IV, com um caráter ascético e penitencial. Em muitas regiões, era um jejum de quarenta dias iniciado em 11 de novembro, festa de São Martinho — razão do nome popular de «Quaresma de São Martinho». Preparava os catecúmenos que seriam batizados na Epifania e dispunha todos os fiéis à festa da manifestação do Senhor. Já o Concílio de Saragoça (ano 380) determinava que, de 17 de dezembro a 6 de janeiro, ninguém faltasse às celebrações diárias.
A liturgia de Roma adotou o Advento mais tarde, no século VI, mas imprimiu-lhe um acento próprio. Enquanto a tradição gálica era penitencial e voltada ao juízo final, Roma acentuou a alegre esperança da vinda do Salvador. Inicialmente com seis semanas, foi o Papa São Gregório Magno (séc. VI-VII) quem lhe deu a forma de quatro semanas e compôs muitas das orações que a Igreja ainda hoje reza. Do encontro dessas duas correntes — a sobriedade penitencial do Norte e a alegria esperançosa de Roma — nasceu o equilíbrio único do Advento: um tempo que é, ao mesmo tempo, de conversão e de júbilo contido. A própria liturgia o exprime: omite-se o Glória aos domingos (reservando-o para irromper na noite de Natal, quando os anjos o cantam sobre Belém), mas no 3º domingo, Gaudete («Alegrai-vos, o Senhor está perto!»), veste-se o rosa, e a alegria já transborda.
II. O Natal
O Verbo se fez carne: o mistério da Encarnação
Toda a espera do Advento desemboca numa só frase, que é o coração do Natal e o centro da nossa fé: «E o Verbo se fez carne e habitou entre nós» (Jo 1,14). No Natal não se celebra apenas o aniversário de um grande homem, nem uma bela história de inverno: celebra-se que o eterno Filho de Deus — «Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro» — assumiu a nossa carne e se fez verdadeiramente homem. «Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher» (Gl 4,4).
A Igreja guarda este mistério com precisão, contra toda deturpação: Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, numa só Pessoa. Não é um homem em quem Deus habitou de passagem, nem um Deus apenas disfarçado de homem: é o Filho de Deus que, sem deixar de ser o que era, passou a ser o que não era. São Paulo contempla esse abaixamento — a kénosis: Cristo, «existindo em condição divina, não se valeu da sua igualdade com Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo... humilhou-se a si mesmo» (Fl 2,6-8). O Natal é a festa dessa humildade de Deus.
Por que o fez? O Catecismo responde com quatro razões: para nos reconciliar com Deus, para que conhecêssemos o seu amor, para ser o nosso modelo de santidade e para nos tornar «participantes da natureza divina» (CIC 456-460). É a «admirável troca» que os Padres tanto cantaram: Deus se fez homem para que o homem pudesse ser elevado a Deus. «O Filho de Deus fez-se homem para nos fazer Deus», resume São Atanásio (cf. CIC 460). Tudo o que é nosso — a carne, o nascimento, a pobreza, até a morte — Ele o tomou, para nos dar tudo o que é seu.
O mistério do Natal celebrado
A liturgia não contempla o Natal como uma ideia, mas como um acontecimento concreto e humilde. «Jesus nasceu na humildade de um estábulo, numa família pobre; simples pastores foram as primeiras testemunhas do acontecimento. É nesta pobreza que se manifesta a glória do céu» (CIC 525). E essa humildade é já uma lição: «fazer-se pequeno» é a condição para entrar no Reino (CIC 526). O Deus que nasce numa manjedoura — a palavra «Belém» significa «casa do pão» — já anuncia que se fará alimento na Eucaristia.
Os Padres falavam dos três nascimentos de Cristo: o nascimento eterno do Pai, antes de todos os séculos; o nascimento temporal de Maria, em Belém; e o nascimento espiritual, que deve dar-se em cada um, quando se acolhe Cristo pela fé. Orígenes advertia que «de nada aproveita que Cristo tenha vindo uma vez na carne, se não vier também à tua alma». É esta a razão última do Natal: que Cristo, nascido em Belém, nasça hoje no coração humano.
Por isso o Natal não cabe num único dia. O Tempo do Natal vai da noite da Natividade até a festa do Batismo do Senhor, e nele a Igreja desdobra o mistério: a Oitava do Natal, a festa da Sagrada Família, a solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus (1º de janeiro — o título mais antigo de Nossa Senhora, definido em Éfeso em 431) e a Epifania. Esta última celebra a tríplice manifestação do Senhor: aos Magos, que representam todos os povos; no Batismo, quando o Pai o proclama Filho amado; e nas bodas de Caná, no seu primeiro sinal. A cor de todo o tempo é o branco e o ouro, da luz e da alegria.
O presépio: o Natal de Greccio
Foi São Francisco de Assis quem deu à Igreja o presépio. No Natal de 1223, na pequena Greccio, na Itália, Francisco quis que o povo pudesse «ver com os olhos do corpo» a pobreza em que o Menino Deus nasceu. Preparou uma manjedoura com feno, trouxe um boi e um jumento, e ali se celebrou a Missa da noite. Conta o seu biógrafo, Tomás de Celano, que naquela noite «Greccio tornou-se como que uma nova Belém», e que o santo, diante da manjedoura, transbordava de ternura ao pronunciar o nome do «Menino de Belém».
O presépio não é um enfeite nem uma lembrança nostálgica: é uma catequese que se vê e se toca. Diante dele, o mistério da Encarnação deixa de ser abstrato e toca o coração: contempla-se um Deus que se fez frágil, dependente, próximo — um Deus que se pode abraçar. O Papa Francisco, na carta Admirabile signum (2019), recorda que o presépio «é como um Evangelho vivo», que ensina a ternura de Deus e converte à simplicidade. Oito séculos depois de Greccio, cada presépio continua a pregar o que Francisco quis mostrar: que Deus está perto, ao alcance dos pequenos.
III. O «sim» de Maria
A Anunciação e o Fiat
Nada disto teria acontecido sem um «sim». Antes de Belém, houve Nazaré; antes do Natal, houve a Anunciação. É ali, no silêncio de uma casa pobre, que «a plenitude dos tempos» começa (cf. CIC 484). O anjo Gabriel é enviado a uma jovem e a saúda com um nome novo: «Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo» (Lc 1,28). «Cheia de graça» — em grego, kecharitôméne — não é um elogio passageiro, mas quase um nome próprio: Maria é aquela que foi plenamente agraciada por Deus, preparada desde sempre para esta hora.
Diante do anúncio de que conceberá o Filho do Altíssimo pela ação do Espírito Santo, Maria faz uma pergunta — «Como será isto, se não conheço homem?» (Lc 1,34). Não é a dúvida incrédula de Zacarias, que pedia uma prova; é a fé que procura entender para melhor obedecer. E, ouvindo que «nada é impossível a Deus» (Lc 1,37), responde: «Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38). Esse Fiat — «faça-se» — é o consentimento livre pelo qual o Verbo se encarna. A concepção é virginal, obra do Espírito Santo e não de homem (CIC 484-486, 496-498): o Filho que Maria concebe não tem outro pai senão o Pai eterno.
A grandeza de Maria está, antes de tudo, na sua fé. Por isso Santa Isabel a proclama feliz não por ter concebido, mas por ter crido: «Bem-aventurada a que creu, porque se cumprirá o que lhe foi dito da parte do Senhor» (Lc 1,45). Maria é a primeira e a maior dos crentes: acreditou no impossível e entregou-se inteiramente a ele.
A nova Eva: o «sim» que desatou o «não»
Os Padres da Igreja contemplaram Maria como a nova Eva. A primeira mulher, diante da palavra do tentador, disse «não» a Deus pela desobediência, e por ela entrou a morte; a Virgem de Nazaré, diante da palavra do anjo, disse «sim» pela fé, e por ela veio a Vida. Santo Irineu resume esse paralelo com uma imagem inesquecível: «o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria» (cf. CIC 494). O Concílio Vaticano II recolhe essa tradição: o Pai quis que a Encarnação fosse precedida da aceitação de Maria, de modo que ela, «com o seu consentimento, cooperou na salvação dos homens com fé e obediência livres» (Lumen Gentium, 56).
É preciso insistir nessa liberdade. Deus não impôs a salvação: pediu-a, e esperou a resposta. São Bernardo encena esse instante suspenso em que o mundo inteiro aguardava: «Responde, ó Virgem, responde depressa ao anjo; ou melhor, por meio do anjo, responde ao teu Senhor. Dize uma palavra e recebe a Palavra... Eis que todo o mundo, prostrado a teus pés, espera a tua resposta.» Nesse «faça-se» de Maria estava em jogo a redenção — e ela o pronunciou.
Por isso o «sim» de Maria é modelo da Igreja e de cada discípulo. Ele não foi dito uma só vez e esquecido: estendeu-se por toda a sua vida, de Nazaré até o Calvário, onde Maria permaneceu de pé junto à cruz, fiel até o fim. Também a cada um, em cada dia, Deus dirige a sua palavra e espera uma resposta. Aprender a dizer, como ela — não por resignação, mas por amor confiante —, «faça-se em mim segundo a tua palavra», é o coração de toda a vida cristã. O Natal, no fundo, pede o mesmo que foi pedido a Maria: deixar que Cristo nasça.
IV. A voz dos Padres e dos santos
«Desperta, ó homem: foi por ti que Deus se fez homem! Desperta tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará. Por ti, digo, Deus se fez homem.»
— Santo Agostinho, Sermão 185 (no Natal)
«Reconhece, ó cristão, a tua dignidade; e, feito participante da natureza divina, não queiras voltar à antiga vileza por uma vida degenerada. Lembra-te de que Cabeça e de que Corpo és membro.»
— São Leão Magno, Sermão 21
«O nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria; o que a virgem Eva atou pela incredulidade, a Virgem Maria o desatou pela fé.»
— Santo Irineu de Lião, Contra as Heresias III, 22; cf. CIC 494
«O Filho de Deus fez-se homem para nos fazer Deus.»
— Santo Atanásio, A Encarnação do Verbo; cf. CIC 460
«Conhecemos uma tríplice vinda do Senhor: na primeira, veio na carne e na fraqueza; na última, virá na glória e na majestade; esta do meio é oculta, e nela vem em espírito e poder.»
— São Bernardo de Claraval, Sermão V no Advento
«Fez-se Belém em Greccio... Ali a simplicidade é honrada, a pobreza exaltada, a humildade louvada, e de Greccio faz-se como que uma nova Belém.»
— Tomás de Celano, Vida de São Francisco (o presépio de 1223)
V. O Magistério e o Catecismo
O Advento e o Natal estão regulados pelas Normas Universais sobre o Ano Litúrgico (n. 32-42), que definem o duplo caráter do Advento — «piedosa e alegre expectativa» — e o Tempo do Natal, do dia da Natividade até o Batismo do Senhor. Sobre o mistério da Encarnação, toda a fé da Igreja, fixada nos Concílios de Éfeso (431) e Calcedônia (451), proclama Jesus Cristo verdadeiro Deus e verdadeiro homem, e Maria verdadeiramente Mãe de Deus (Theotókos).
Sobre o «sim» de Maria, o Concílio Vaticano II, na Constituição dogmática Lumen Gentium (n. 56), ensina que «o Pai das misericórdias quis que a Encarnação fosse precedida da aceitação daquela que estava predestinada a ser Mãe», de modo que Maria, «com o seu consentimento, cooperou na salvação dos homens com fé e obediência livres».
Números-chave do Catecismo: CIC 522-524 — o Advento, atualização da espera e desejo da segunda vinda. CIC 456-463 — por que o Verbo se fez carne; a «admirável troca». CIC 464-469 — verdadeiro Deus e verdadeiro homem, numa só Pessoa. CIC 525-526 — o mistério do Natal: Deus nasce na pobreza. CIC 484-486; 496-498 — a Anunciação e a concepção virginal pela obra do Espírito Santo. CIC 490-494 — o «Fiat» de Maria: fé e obediência livres; a nova Eva.
VI. A tradição viva — como se vive este tempo
A Coroa do Advento
A coroa do Advento é um dos sinais mais queridos deste tempo. Nasceu em 1839, na Alemanha, pelas mãos do pastor Johann Hinrich Wichern, que cuidava de crianças órfãs. Para responder à pergunta «quanto falta para o Natal?», ele montou uma grande roda de madeira com velas — uma acesa a cada dia — e assim ensinava as crianças a contar o tempo rezando. O costume passou às igrejas e, depois, às casas, também entre os católicos.
Cada elemento tem um significado. O formato circular, sem começo nem fim, lembra a eternidade de Deus e o seu amor que não acaba. Os ramos verdes, que permanecem vivos mesmo no inverno, são sinal de esperança e de vida que não morre. As quatro velas marcam os quatro domingos; acende-se uma a mais a cada semana, e a luz vai crescendo à medida que o Natal se aproxima. Três são roxas (conversão e espera) e uma é rosa, acesa no 3º domingo (Gaudete), da alegria pela proximidade do Natal. A vela branca central, opcional, acende-se no Natal: é o Cristo, Luz do mundo, enfim chegado.
As Novenas do Natal
«Novena» vem de nove: são nove dias de oração em preparação a uma festa, à imagem dos nove dias em que os Apóstolos e Maria perseveraram em oração aguardando o Espírito Santo (At 1,14). A Novena de Natal é rezada, tradicionalmente, de 16 a 24 de dezembro — unindo-se aos dias das grandes Antífonas «Ó». Há muitas formas de rezá-la — na igreja, nas comunidades e nos lares. No Brasil é muito querida a tradição dos «Festejos» e novenas de Natal, que reúnem famílias e vizinhança em torno do presépio.
O Presépio
O presépio nasceu com São Francisco de Assis, no Natal de 1223, em Greccio, e desde então tornou-se uma das mais belas tradições da fé — uma verdadeira catequese que se vê e se toca.
As figuras e seu sentido: o Menino na manjedoura é o centro de tudo — Deus que se faz pequeno e pobre por amor; em muitas famílias, só se coloca o Menino na noite de Natal. Maria e José são os que acolheram e guardaram o Filho de Deus; modelo de toda família que faz lugar para Jesus. Os pastores são os pobres e simples, as primeiras testemunhas; lembram que Deus se revela aos pequenos. O boi e o jumento são a criação que reconhece o seu Senhor (cf. Is 1,3); a humildade do estábulo. Os Reis Magos colocam-se na Epifania (6 de janeiro): os povos que vêm adorar o Rei; a estrela que os guiou. A estrela e a luz representam Cristo que ilumina as nações.
Outros sinais do tempo
As cores: o roxo do Advento (espera e conversão) dá lugar ao branco e ao ouro do Natal (alegria e luz). A luz e as velas: em tempo de dias curtos, a luz que cresce anuncia Cristo, «Luz do mundo» (Jo 8,12). A árvore de Natal: sinal da vida que permanece; seus enfeites e luzes lembram os dons de Deus e a alegria da festa. O silêncio e a sobriedade do Advento: a liturgia omite o Glória aos domingos e veste o roxo, para que a alegria do Natal seja mais plena quando enfim chegar.
VII. Questões que atravessam qualquer reflexão sobre este tempo
O Advento é um tempo de penitência, como a Quaresma?
Em parte. O Advento é penitencial no sentido de ser tempo de conversão, vigilância e desapego — por isso a cor roxa e a omissão do Glória aos domingos. Mas o seu tom não é de luto, e sim de alegre esperança: a Igreja o chama «piedosa e alegre expectativa» (Normas, 39). É, portanto, mais sóbrio que festivo, mas sem o rigor penitencial da Quaresma — e no 3º domingo, Gaudete, até veste o rosa da alegria. A diferença de fundo: a Quaresma prepara para a cruz; o Advento, para o presépio.
O Natal não foi apenas a «cristianização» de uma festa pagã?
A escolha do dia 25 de dezembro ligou-se a razões simbólicas (a luz que vence as trevas no solstício) e a uma antiga tradição que unia a concepção e a morte de Cristo à mesma data do ano. Mas o conteúdo da festa não vem do paganismo: vem da fé no Verbo que se fez carne. A Igreja não «batizou» um deus pagão — proclamou que o verdadeiro Sol que nasce, o único que não se põe, é Cristo (como canta a antífona «Ó Oriente»). O símbolo foi assumido e transfigurado, não copiado.
Maria poderia ter dito «não»?
Sim. O «sim» de Maria foi inteiramente livre — não um gesto automático, mas um ato de fé e de amor. É isso que o torna tão grande: Deus quis precisar do consentimento de uma criatura, e esperou a resposta. Como ensina o Concílio, Maria cooperou «com fé e obediência livres» (LG 56). A sua liberdade não diminui a graça: é a graça que a torna capaz de responder plenamente.
O que significa, na prática, «deixar Cristo nascer em mim» neste Natal?
Significa viver a «vinda do meio» de que fala São Bernardo: preparar o coração pela oração, pela reconciliação (a confissão é o grande gesto do Advento) e pela caridade concreta, para que a festa não seja apenas exterior. Quem se confessa, reza, perdoa e partilha prepara em si uma manjedoura — e então o Natal deixa de ser uma data e passa a ser um encontro.
Ao fim do caminho
Chegando ao fim deste percurso, uma certeza se destaca: Advento e Natal são a mesma história em dois tempos. No Advento, aprende-se o desejo; no Natal, celebra-se o cumprimento. E a chave de ambos é a mesma: o «sim» de uma jovem de Nazaré. Sem ele, não teria havido Belém; sem a nossa pequena imitação dele, cada ano, não há verdadeiro encontro com Cristo que vem.
O Advento ensina a dizer, como Isaías: «Se rasgasses os céus e descesses!». O Natal ensina a dizer, com os anjos: «Glória a Deus nas alturas». E, entre uma coisa e outra, Maria ensina a palavra que faz tudo acontecer: «Faça-se em mim segundo a tua palavra». Quem a diz, de verdade, deixa que Deus faça do próprio coração uma Belém — e o Natal, nessa alma, nunca mais termina.
«Vem, Senhor Jesus!»
— Apocalipse 22,20
Referências
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 1990. Passagens citadas: Is 1,3; 7,14; 9,1-6; 40,3-5; 63,19; Mt 1,18-25; 2,1-12; Lc 1,26-45; 2,1-20; Jo 1,1-18; 8,12; At 1,14; Gl 4,4-5; Fl 2,6-11; Ap 22,20.
CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO. Normas Universais sobre o Ano Litúrgico e o Calendário, n. 32-42; Diretório sobre Piedade Popular e Liturgia, nn. 96-110.
CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Dogmática Lumen Gentium, 52-69 (esp. 56). Roma, 1964.
CONCÍLIO DE ÉFESO (431); CONCÍLIO DE CALCEDÔNIA (451). Definições sobre a Encarnação e Maria, Mãe de Deus.
FRANCISCO. Carta Apostólica Admirabile signum (sobre o presépio). Roma, 2019.
IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2000. Números citados: 456-469; 484-507; 522-526.
IRINEU DE LIÃO, Santo. Contra as Heresias, III, 22.
AGOSTINHO, Santo. Sermão 185 (no Natal).
LEÃO MAGNO, São. Sermão 21.
ATANÁSIO, Santo. A Encarnação do Verbo.
BERNARDO DE CLARAVAL, São. Sermões no Advento; Homilia IV sobre o 'Missus est'.
ORÍGENES. Homilias sobre São Lucas.
TOMÁS DE CELANO. Vida de São Francisco (o presépio de Greccio, 1223).