A Semana Santa e o Tríduo Pascal
Do Domingo de Ramos à explosão de alegria da Ressurreição
Equipe Flamma Cordis · imagem criada por IA
A Semana Santa e o Tríduo Pascal
Do Domingo de Ramos à explosão de alegria da Ressurreição
«Cristo, nossa Páscoa, foi imolado; celebremos, pois, a festa.»
— 1 Coríntios 5,7-8
Antes de começar
Chega-se, agora, ao coração do ano litúrgico e de toda a fé cristã. A Semana Santa — que se abre no Domingo de Ramos e culmina no Tríduo Pascal (Quinta-feira Santa, Sexta-feira Santa, Sábado Santo e Vigília Pascal) — não celebra uma lembrança distante, mas torna presente, hoje, o Mistério Pascal: a Paixão, a Morte e a Ressurreição do Senhor, pelas quais fomos salvos.
Estas linhas percorrem a Semana Santa por inteiro. Primeiro, o Domingo de Ramos da Paixão. Depois, os primeiros dias e a Missa do Crisma. Em seguida, o sentido do Tríduo como uma única grande celebração: a Quinta-feira Santa (a Ceia, o lava-pés, o altar da repousição); a Sexta-feira Santa (a adoração da cruz, trono e vitória); o Sábado Santo e o grande silêncio em que Cristo desce à mansão dos mortos para buscar Adão; a Vigília Pascal e a explosão de alegria da Ressurreição.
I. A Semana Santa: a «semana maior» do ano
A Semana Santa é a semana mais sagrada do ano cristão — a Hebdomada Sancta, a «semana maior», como a chamavam os antigos. Nela a Igreja acompanha, dia a dia, os últimos passos do Senhor: a entrada em Jerusalém, a Última Ceia, a Paixão, a morte, o repouso no sepulcro e a Ressurreição gloriosa. Não se trata de encenar um drama do passado, mas de celebrar e tornar presente o mistério central da salvação, para dele participar.
Desde os primeiros séculos — Jerusalém, no século IV, já o testemunha pela peregrina Egéria — a Igreja organizou estes dias com celebrações próprias e intensas. Tudo converge para o seu ápice: o Tríduo Pascal. A Semana Santa é, por assim dizer, o pórtico solene que conduz, passo a passo, até a noite santa da Páscoa, «a mãe de todas as santas vigílias» (Santo Agostinho).
II. Domingo de Ramos da Paixão do Senhor
A Semana Santa abre-se no Domingo de Ramos da Paixão do Senhor. O próprio nome, duplo, revela os dois movimentos deste dia, que encerra em si toda a semana que se segue: a entrada triunfal e a Paixão.
A entrada em Jerusalém. A celebração começa, de modo festivo, com a bênção dos ramos e a procissão, recordando a entrada messiânica de Jesus em Jerusalém: o povo o aclama agitando ramos de palmeira e estendendo mantos pelo caminho, cantando «Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor!» (Mt 21,9). Jesus entra como Rei — mas um Rei manso, montado num jumentinho (cf. Zc 9,9), não num cavalo de guerra. É o Rei da paz, que vem reinar pela cruz.
A Paixão. Logo em seguida, porém, a liturgia muda de tom: proclama-se solenemente o relato da Paixão do Senhor (num dos Evangelhos sinóticos, conforme o ano A, B ou C). O mesmo povo que gritava «Hosana!» gritará, dias depois, «Crucifica-o!». Esse contraste é o próprio coração do dia: a Igreja quer que, desde o limiar da Semana Santa, se tenha diante dos olhos todo o mistério, do triunfo à cruz. Por isso a cor litúrgica é o vermelho, cor do sangue e da realeza do Mártir que é Rei.
Os ramos: símbolo e história. Os ramos que se levam para casa são bênção e profissão de fé: proclamam-se Cristo como Rei e Salvador. Essa procissão tem raízes antiquíssimas — em Jerusalém, no século IV, Egéria já descreve os fiéis descendo do Monte das Oliveiras com ramos de palmeira e de oliveira, cantando. A tradição também recorda que os ramos deste ano, uma vez secos, são queimados para produzir as cinzas da Quarta-feira de Cinzas do ano seguinte: do ramo verde do triunfo às cinzas da penitência, a liturgia ensina em gesto toda a lógica da fé, que da humildade conduz à glória.
III. Os primeiros dias e a Missa do Crisma
Os primeiros dias da Semana Santa — segunda, terça e quarta-feira — são dias de recolhimento e preparação. A liturgia faz contemplar a aproximação da Paixão: a unção em Betânia, o anúncio da traição de Judas. É tempo de intensificar a oração e de aproximar-se do sacramento da Reconciliação, para celebrar a Páscoa com o coração purificado.
É nestes dias — tradicionalmente na manhã de Quinta-feira Santa (ou num dia próximo, por razões pastorais) — que se celebra a Missa do Crisma. Trata-se de uma celebração muito significativa: o Bispo, na Catedral, reúne em torno de si o presbitério (os sacerdotes da diocese) e todo o povo de Deus. Ela manifesta de modo visível a unidade da Igreja diocesana em torno do seu Pastor.
Nessa Missa acontecem duas coisas próprias. Primeiro, os sacerdotes renovam as promessas sacerdotais que fizeram na ordenação, reafirmando diante do Bispo e do povo a sua entrega a Cristo e à Igreja. Segundo, o Bispo abençoa e consagra os santos óleos que serão usados em toda a diocese durante o ano nos sacramentos. São três.
O Óleo dos Catecúmenos — com que são ungidos os que se preparam para o Batismo, para fortalecê-los na luta contra o mal. O Óleo dos Enfermos — com que se unge os doentes no sacramento da Unção dos Enfermos, para alívio e salvação. O Santo Crisma — óleo perfumado com bálsamo, consagrado pelo Bispo, usado no Batismo, na Crisma (Confirmação) e na Ordenação, e para consagrar altares e igrejas. É o óleo da missão: «Crisma» e «Cristo» têm a mesma raiz — o «ungido».
Assim, antes de entrar no Tríduo, a Igreja reúne em um só gesto o seu sacerdócio e os sinais sacramentais pelos quais a graça de Cristo chegará, ao longo de todo o ano, a cada batizado, confirmado, doente e ordenado.
IV. O Tríduo Pascal: o ápice de todo o ano
Chega-se, agora, ao centro de tudo. O Tríduo Pascal (do latim triduum, «espaço de três dias») é o ápice de todo o ano litúrgico. As Normas Universais sobre o Ano Litúrgico ensinam que «o Tríduo Pascal da Paixão e da Ressurreição do Senhor resplandece como o vértice de todo o ano litúrgico», e que «a solenidade da Páscoa tem na ordem do tempo o mesmo primado que a do domingo na semana» (nn. 18-19).
É preciso compreender um ponto essencial, muitas vezes ignorado: o Tríduo não são três celebrações separadas, mas uma única e grande celebração do Mistério Pascal, que se desdobra por três dias. Ele começa com a Missa da Ceia do Senhor na tarde de Quinta-feira Santa, tem o seu centro na Vigília Pascal e termina com as Vésperas do Domingo da Ressurreição. Por isso as celebrações de Quinta, Sexta e da Vigília não têm propriamente início e fim isolados: a de Quinta-feira termina em silêncio, sem bênção final; a de Sexta-feira começa e termina em silêncio; só na Vigília a alegria irrompe de novo. É como um só grande ato de três atos, uma só passagem com o Senhor da morte para a vida.
Vale lembrar o modo antigo de contar o tempo, da tradição bíblica: o dia litúrgico vai do pôr do sol ao pôr do sol. Por isso cada celebração do Tríduo, celebrada ao entardecer ou à noite, já pertence, em sentido pleno, ao dia seguinte, e a grande Vigília se celebra na noite, quando a luz vence as trevas.
V. Quinta-feira Santa: a Ceia do Senhor
Ao entardecer de Quinta-feira Santa, com a Missa da Ceia do Senhor, abre-se o Tríduo Pascal. Volta o branco festivo, cantam-se o Glória (ao som dos sinos, que depois se calarão até a Vigília) e a Igreja faz memória da Última Ceia, na qual Jesus, «na noite em que ia ser entregue», deixou os maiores dons. Três mistérios se celebram juntos nesta noite.
A instituição da Eucaristia — «Isto é o meu Corpo... este é o meu Sangue... fazei isto em memória de mim» (cf. Lc 22,19-20; 1Cor 11,23-26). Jesus antecipa, no pão e no vinho, a entrega total que fará na cruz, e deixa esse memorial para sempre. A instituição do Sacerdócio — ao dizer «fazei isto em memória de mim», Cristo constitui os Apóstolos sacerdotes da Nova Aliança, para que a Eucaristia se perpetue na Igreja até o fim dos tempos. O mandamento do amor — o ritual do «fazei isto» se ilumina no gesto do lava-pés.
O Lava-pés. Nesta Missa realiza-se o rito do lava-pés (o Mandatum), em que o sacerdote, como Cristo, lava os pés de alguns fiéis. No Evangelho de João (Jo 13,1-15), Jesus — «tendo amado os seus, amou-os até o fim» — depõe as vestes, cinge-se com uma toalha e lava os pés dos discípulos, tarefa de escravo, e lhes diz: «Dei-vos o exemplo, para que também vós façais como eu vos fiz.» A Eucaristia e o serviço são inseparáveis: quem recebe o Corpo entregue de Cristo é enviado a entregar-se aos irmãos. É o «mandamento novo»: «Amai-vos uns aos outros como eu vos amei» (Jo 13,34).
O altar da repousição. Terminada a Missa — sem bênção final, porque a celebração não «acaba», apenas se suspende —, o Santíssimo Sacramento é levado em procissão a um altar preparado com flores e luzes, o altar da repousição, e ali os fiéis são convidados a velar em adoração, prolongando a oração de Jesus no Horto das Oliveiras: «Não pudestes vigiar uma hora comigo?» (Mt 26,40). Depois, despe-se o altar e retira-se tudo: começa o grande silêncio da Paixão.
VI. Sexta-feira Santa: a Paixão do Senhor
A Sexta-feira Santa é o dia da morte do Senhor. É um dos dois únicos dias do ano (com o Sábado Santo) em que a Igreja não celebra a Missa. O altar está nu, o sacrário vazio e aberto, os sinos calados. Toda a Igreja se concentra no mistério da cruz. É dia de jejum e abstinência, guardado desde a mais remota antiguidade.
À tarde celebra-se a Ação litúrgica da Paixão do Senhor, austera e densa, em três partes. A cor é o vermelho, cor do sangue dos mártires e da realeza. A Liturgia da Palavra proclama o canto do Servo sofredor (Is 52,13-53,12) e, solenemente, a Paixão segundo São João (Jo 18-19). Seguem-se as grandes Orações Universais, em que a Igreja reza por todos: pela própria Igreja, pelo Papa, pelos ministros e fiéis, pelos catecúmenos, pela unidade dos cristãos, pelos judeus, pelos que não creem e por toda a humanidade. Da cruz, Cristo abraça o mundo inteiro.
A Adoração da Santa Cruz. A cruz é descoberta e mostrada ao povo com a tríplice aclamação: «Eis o lenho da cruz, no qual esteve suspensa a salvação do mundo. Vinde, adoremos!» Um a um, os fiéis se aproximam para venerar a cruz com um beijo, uma genuflexão, uma inclinação. Depois, a Sagrada Comunhão: não há consagração; comunga-se das hóstias reservadas na véspera. E então tudo volta ao silêncio.
A cruz, trono e vitória. Eis o paradoxo que está no centro deste dia, e de toda a fé: a Igreja não chora apenas a morte de Jesus — ela adora a cruz e a proclama vitoriosa. Pois na cruz, aparente derrota, Cristo venceu o pecado e a morte. É o que o próprio Jesus anunciara: «Quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim» (Jo 12,32). A cruz deixa de ser patíbulo de vergonha e se torna trono do Rei e árvore da vida. Por isso, já na Sexta-feira, no meio da dor, a Igreja canta a vitória:
«Vitória! Tu reinarás! Ó Cruz, tu nos salvarás!»
— refrão antigo da fé cristã diante da morte de Cristo
No mesmo espírito, a liturgia canta o hino «Pange lingua / Crux fidelis» — «Ó cruz fiel, árvore nobre entre todas, nenhuma floresta produziu outra igual em folhas, flores e frutos» — e aclama: «Ó Cruz, nossa única esperança» (O Crux, ave, spes unica). A Igreja não separa a cruz da glória: contempla, num só olhar, o Crucificado que é o Vencedor. A dor é real, mas não tem a última palavra — e é essa certeza que faz o cristão cantar mesmo sob a cruz.
VII. Sábado Santo: o grande silêncio e a descida aos mortos
O Sábado Santo é o dia do grande silêncio. A Igreja permanece junto ao sepulcro do Senhor, meditando a sua Paixão e morte. Não há celebração litúrgica alguma durante o dia: nem Missa, nem sacramentos (a não ser a Reconciliação e o Viático aos moribundos). O altar está nu. É dia de luto sereno, de espera e de oração silenciosa — a Igreja, como Maria no Sábado, guarda a fé enquanto o Senhor repousa no túmulo.
A descida à mansão dos mortos. Mas esse silêncio não é vazio. A fé da Igreja, professada no Credo — «desceu à mansão dos mortos» —, ensina que, enquanto o seu corpo repousava no sepulcro, Cristo, em sua alma unida à divindade, desceu à morada dos mortos para libertar os justos que o haviam precedido (cf. 1Pd 3,18-19; 4,6). O Catecismo o explica: «Jesus não desceu aos infernos para libertar os condenados, mas para libertar os justos que o tinham precedido» (CIC 633); «com a alma unida à sua pessoa divina, desceu à morada dos mortos; abriu as portas do céu aos justos que o tinham precedido» (cf. CIC 631-637). A morte não é, para Cristo, um fim, mas o campo da sua vitória: Ele entra no reino da morte como Senhor, para arrancar dela os cativos.
A antiga homilia do Ofício das Leituras. A Liturgia das Horas deste dia oferece uma das páginas mais belas de toda a tradição cristã: uma antiga homilia do Sábado Santo (de autor desconhecido, séc. IV-V). Ela começa contemplando o silêncio do mundo:
«Um grande silêncio reina hoje sobre a terra; um grande silêncio, porque o Rei está dormindo. Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos.»
— Antiga Homilia para o Sábado Santo (séc. IV-V)
E então descreve, em cena comovente, o encontro de Cristo com Adão — o primeiro homem, figura de toda a humanidade perdida. Cristo desce à morada dos mortos e vai ao encontro do pai de todos os homens, a «ovelha perdida» que veio buscar.
«Ele vai à procura de Adão, nosso primeiro pai, como à ovelha perdida. Quer visitar os que vivem nas trevas e na sombra da morte. E tomando-o pela mão, levanta-o.»
— Antiga Homilia para o Sábado Santo
E dirige a Adão — e a cada um — palavras que são o próprio Evangelho da Páscoa: o Deus que se fez homem reivindica, pela sua autoridade, o homem que o pecado aprisionara na morte.
«Eu sou o teu Deus, que por tua causa me tornei teu filho. Desperta, ó tu que dormes! Levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará. Desperta, não te criei para ficares prisioneiro da morte. Levanta-te! Deixemos este lugar. O inimigo te expulsou do paraíso; eu já não te coloco no paraíso, mas no trono celeste.»
— Antiga Homilia para o Sábado Santo
Esta é a fé que a tradição traduziu também em imagem: o ícone oriental da Anástasis («Ressurreição», ou «Descida ao limbo») mostra Cristo ressuscitado, triunfante sobre as portas quebradas da morte, tomando Adão e Eva pelo pulso e arrancando-os dos sepulcros. O Sábado Santo, dia aparentemente vazio, é na verdade o dia em que Cristo, vencedor, vai buscar, um a um, os que a morte retinha. O silêncio da terra é a véspera da explosão da vida.
VIII. Vigília Pascal e Domingo da Ressurreição
Chega-se, agora, ao vértice. Na noite de sábado para domingo celebra-se a Vigília Pascal, «a mãe de todas as santas vigílias» (Santo Agostinho) e a mais importante celebração de todo o ano. A liturgia a chama «a noite santíssima em que o Senhor ressuscitou», e nela a Igreja vela esperando a Ressurreição. Ela se desdobra em quatro grandes partes.
Lucernário (Liturgia da Luz) — no escuro, acende-se o fogo novo e dele o grande Círio Pascal, símbolo de Cristo ressuscitado, «luz do mundo». A chama se propaga de vela em vela, e a igreja, antes às escuras, enche-se de luz. Então o diácono canta o Precônio Pascal, o Exsultet: «Exultai, legiões dos anjos... Alegra-te, ó Terra... Esta é a noite em que Cristo, rompendo os laços da morte, ressurgiu vitorioso do sepulcro!»
Liturgia da Palavra — proclama-se a longa série de leituras que percorre toda a história da salvação: a criação, o sacrifício de Abraão, a passagem do Mar Vermelho, os anúncios dos profetas... até que, de repente, o Glória rompe o silêncio, os sinos repicam de novo e o Aleluia, calado durante toda a Quaresma, explode com a proclamação do Evangelho da Ressurreição.
Liturgia Batismal — é a noite batismal por excelência: batizam-se os catecúmenos, e toda a assembleia renova as promessas do Batismo, renunciando ao mal e professando a fé. Nasce-se de novo com Cristo que ressuscita (cf. Rm 6,3-4).
Liturgia Eucarística — a Vigília culmina na Eucaristia pascal, em que os neófitos comungam pela primeira vez e toda a Igreja celebra, em festa, a presença do Ressuscitado.
A explosão de alegria. O Domingo da Ressurreição — a Páscoa — é o «dia que o Senhor fez» (Sl 117,24), o primeiro dia da semana nova, a aurora da nova criação. Depois do silêncio do sepulcro, tudo é luz, flores, cantos, sinos e Aleluia: a Igreja proclama que Cristo venceu a morte e abriu as portas da vida eterna. É a explosão de alegria para a qual tudo caminhava desde o Domingo de Ramos. «Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé» (1Cor 15,14) — mas Ele ressuscitou verdadeiramente, e por isso se canta: «Cristo ressuscitou, verdadeiramente ressuscitou! Aleluia!» A alegria da Páscoa se prolonga por cinquenta dias, até Pentecostes, num só e grande dia de festa.
IX. A voz dos Padres e dos santos
Os Padres contemplaram a Páscoa como a «passagem» (Pascha) de Cristo e nossa, da morte para a vida, e cantaram a cruz como vitória.
«Ó verdadeiramente feliz culpa, que mereceu tal e tão grande Redentor! Esta é a noite em que Cristo, rompendo os laços da morte, ressurgiu vitorioso do sepulcro.»
— Precônio Pascal (Exsultet)
«Cristo resgatou-nos pela sua Páscoa: Ele é o Cordeiro imolado, Ele é o sacerdote que se oferece, Ele é o Deus que nos reconcilia.»
— Melitão de Sardes, Homilia sobre a Páscoa (séc. II)
Para os Padres, a cruz e a Ressurreição são um só mistério: não há glória sem a cruz, nem a cruz sem a glória que dela irrompe na manhã de Páscoa. E os santos viveram o Tríduo como o coração da sua fé.
«Nós adoramos-Vos, ó Cristo, e Vos bendizemos, porque pela vossa santa cruz remistes o mundo.»
— oração que São Francisco de Assis repetia diante do Crucificado
X. O Catecismo e os documentos
A Igreja ensina que o Mistério Pascal — a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo — é o centro de toda a sua vida e liturgia. O Concílio Vaticano II recorda que Cristo «realizou a obra da redenção humana e da perfeita glorificação de Deus sobretudo pelo Mistério Pascal da sua bem-aventurada Paixão, Ressurreição e gloriosa Ascensão» (Sacrosanctum Concilium, 5). As Normas Universais sobre o Ano Litúrgico (nn. 18-21) proclamam o Tríduo Pascal «o vértice de todo o ano litúrgico», e a Vigília Pascal a maior de todas as celebrações.
Números-chave do Catecismo: CIC 571-573 — o Mistério Pascal, centro da Boa Nova e da fé. CIC 595-623 — o processo, a Paixão e a morte de Jesus; o sentido salvífico da cruz. CIC 624-637 — Cristo no sepulcro; a descida de Cristo à mansão dos mortos. CIC 638-658 — a Ressurreição de Cristo, obra da Trindade e fundamento da nossa fé e esperança. CIC 1168-1171 — o Tríduo Pascal e a Páscoa, centro do ano litúrgico.
XI. Questões que atravessam qualquer reflexão sobre a Semana Santa
Por que o Domingo de Ramos se chama também «da Paixão»?
Porque, além da entrada triunfal com os ramos, proclama-se nele todo o relato da Paixão. A Igreja quer que, desde a abertura da Semana Santa, se tenha diante dos olhos o mistério inteiro: do «Hosana!» ao «Crucifica-o!», da aclamação à cruz. É o resumo antecipado de tudo o que a semana vai desdobrar.
Por que não há Missa na Sexta-feira Santa nem no Sábado Santo?
Porque são os dias em que a Igreja contempla a morte e o repouso do Senhor no sepulcro. Na Sexta-feira celebra-se a Ação litúrgica da Paixão (com comunhão das hóstias reservadas, mas sem consagração); no Sábado, durante o dia, não há celebração alguma. A Missa só volta na Vigília Pascal, quando se celebra a vitória de Cristo sobre a morte. O jejum eucarístico destes dias faz crescer o desejo da Páscoa.
O Tríduo são três dias ou quatro celebrações?
O Tríduo é uma única grande celebração do Mistério Pascal, em três dias litúrgicos. Começa com a Missa da Ceia (tarde de Quinta), passa pela Paixão (Sexta) e pelo silêncio do Sábado, tem o seu ápice na Vigília Pascal e se encerra nas Vésperas do Domingo da Ressurreição. Contam-se do pôr do sol ao pôr do sol, segundo a tradição bíblica — por isso cada celebração vespertina já pertence ao dia seguinte.
A cruz é sinal de derrota ou de vitória?
De vitória. Para o mundo, a cruz era o mais vergonhoso dos suplícios; para a fé, tornou-se o trono do Rei e a árvore da vida. Nela Cristo venceu o pecado e a morte. Por isso a Igreja a adora na Sexta-feira Santa e já canta, no meio da dor, «Vitória! Tu reinarás!». A dor é real, mas não tem a última palavra: a Páscoa confirma que o amor é mais forte que a morte.
O que significa dizer que Cristo «desceu à mansão dos mortos»?
Significa que a sua morte foi real — morreu de verdade — e que, com a alma unida à divindade, foi ao reino dos mortos, não para ser vencido, mas como vencedor, para levar a salvação aos justos que o haviam precedido, desde Adão (cf. CIC 631-637). É o que a antiga homilia do Sábado Santo descreve de modo tão belo: Cristo toma Adão pela mão e o levanta. A morte de todos foi visitada pela vida de Cristo.
Ao fim do caminho
Chegando ao fim deste percurso, uma certeza se destaca: a Semana Santa é a semana em que tudo o que a fé crê se torna o que a Igreja celebra, e tudo o que a Igreja celebra se oferece a cada um para que viva. Do primeiro ramo verde até o Círio aceso na noite, do lava-pés à cruz adorada, do silêncio do Sábado ao Aleluia da aurora, a Igreja faz passar o cristão por dentro do mistério — e o deixa, no fim, numa alegria que o mundo não pode dar.
Celebrar bem a Semana Santa é entrar nessa passagem (é o que significa Páscoa) com os dois pés — jejum e canto, cruz e vitória, silêncio e Aleluia. Quem assim a vive sai outra pessoa. E porque Cristo ressuscitou, verdadeiramente, cada Semana Santa deixa no coração a certeza mais importante de todas: o amor é mais forte que a morte.
«Cristo ressuscitou, verdadeiramente ressuscitou! Aleluia!»
— aclamação pascal da Igreja
Referências
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 1990. Passagens citadas: Zc 9,9; Mt 21,1-11; 26,40; Jo 12,12-16.32; 13,1-15.34; 18-19; 1Cor 5,7-8; 11,23-26; 15,3-8.14.20; Is 52,13-53,12; 1Pd 3,18-19; 4,6; Rm 6,3-11; Lc 22,19-20; 24,1-12; Mc 16,1-7; Sl 117,24.
IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2000. Números citados: 571-573; 595-637; 638-658; 1168-1171.
CONCÍLIO VATICANO II. Sacrosanctum Concilium, 5-6; 102-107. Roma, 1963.
CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO. Normas Universais sobre o Ano Litúrgico e o Calendário, nn. 18-21.
MISSAL ROMANO. Celebrações do Tríduo Pascal; Precônio Pascal (Exsultet).
ANTIGA HOMILIA PARA O SÁBADO SANTO (séc. IV-V). Ofício das Leituras.
MELITÃO DE SARDES. Homilia sobre a Páscoa (séc. II).
EGÉRIA. Diário de viagem (séc. IV, Jerusalém).
AGOSTINHO, Santo. Sermões sobre a Páscoa.
FRANCISCO DE ASSIS, São. Orações e admonições.
Hinos litúrgicos: Pange lingua / Crux fidelis; Vexilla Regis; Vitória, tu reinarás; O Crux, ave, spes unica.