A Sagrada Escritura
A Palavra de Deus viva — cânon, história, difusão e leitura orante
Equipe Flamma Cordis · imagem criada por IA
A Sagrada Escritura
A Palavra de Deus viva — cânon, história, difusão e leitura orante
«Lâmpada para os meus passos é a vossa palavra, e luz para o meu caminho.»
— Salmo 119(118),105
Antes de começar
Nenhum outro livro atravessou tantos séculos, tantas mãos e tantas línguas quanto a Bíblia. Foi copiada letra por letra dentro de mosteiros, defendida com sangue por mártires que não aceitaram entregá-la à fogueira, escondida em porões, traduzida em milhares de idiomas, impressa como primeiro grande livro da história da imprensa. E, apesar de todo esse peso humano, continua sendo chamada por um nome muito simples: Palavra de Deus.
Estas linhas percorrem a Sagrada Escritura por inteiro. Primeiro, o que ela é — Revelação, Palavra viva, inspiração, verdade — e como se articula com a Tradição e o Magistério. Depois, a voz dos Padres, do Magistério e do Catecismo, com o testemunho da própria Escritura sobre si mesma. Em seguida, a formação do cânon — por que a Bíblia católica tem 73 livros e as outras têm 66 —, o preço pago para conservá-la ao longo da história, e sua difusão dos manuscritos à era digital. Ao fim, como lê-la na prática, com os passos antigos da Leitura Orante.
I. A Palavra de Deus, viva e escrita
A Revelação: Deus fala e se dá a conhecer
Por sua bondade e amor, Deus quis revelar-se e comunicar-se aos homens, convidando-os à comunhão consigo (Dei Verbum, 2). Essa Revelação acontece por obras e palavras ao longo da história da salvação e culmina em Jesus Cristo, a Palavra (o Verbo) definitiva do Pai: «Muitas vezes e de muitos modos falou Deus outrora aos pais pelos profetas; nestes dias, que são os últimos, falou-nos pelo Filho» (Hb 1,1-2). A Bíblia é o registro escrito e inspirado dessa Palavra (CIC 50-73).
A Palavra viva e eficaz
A Escritura não é um livro do passado, mas Palavra viva, pela qual Deus fala hoje, «conversa amorosamente» com os seus filhos (Dei Verbum, 21). «A palavra de Deus é viva e eficaz, mais penetrante que uma espada de dois gumes» (Hb 4,12); «permanece eternamente» (Is 40,8); não volta sem produzir fruto (Is 55,11). Por isso a Igreja venera as Escrituras como venera o próprio Corpo do Senhor, tomando da mesa da Palavra e da mesa da Eucaristia o pão da vida.
«Na Sagrada Escritura, o Pai que está nos céus vem, com muito amor, ao encontro de seus filhos, para conversar com eles.»
— Concílio Vaticano II, Dei Verbum, 21
Tradição, Escritura e Magistério
A Palavra de Deus chega até nós por duas vias que brotam da mesma fonte divina: a Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura (Dei Verbum, 9). A Tradição transmite integralmente a Palavra confiada por Cristo aos Apóstolos; a Escritura é essa mesma Palavra posta por escrito sob a inspiração do Espírito. Cabe ao Magistério vivo da Igreja — o Papa e os bispos em comunhão com ele — interpretar autenticamente a Palavra, não acima dela, mas a seu serviço.
«A Sagrada Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja estão de tal modo ligados e associados entre si, que nenhum deles subsiste sem os outros.»
— Dei Verbum, 10; cf. CIC 95
A inspiração e a verdade da Sagrada Escritura
A Escritura foi escrita sob a inspiração do Espírito Santo: Deus é o seu autor, servindo-se de verdadeiros autores humanos, que puseram por escrito, com suas capacidades e seu estilo, tudo e só aquilo que Ele queria (Dei Verbum, 11; CIC 105-106). Por isso a Bíblia ensina «com firmeza, fidelidade e sem erro a verdade que Deus quis ver consignada nas Sagradas Letras para a nossa salvação» (Dei Verbum, 11; CIC 107). Não é manual de ciência moderna nem de história laica: ensina, sem erro, a verdade que salva.
Os sentidos da Escritura
A Igreja lê a Escritura em dois grandes sentidos (CIC 115-119). O sentido literal — o que as palavras significam segundo a intenção do autor —, que é a base de tudo. E o sentido espiritual, que se desdobra em alegórico (o texto lido em Cristo), moral (o que devemos fazer) e anagógico (as realidades eternas, o Céu). Para interpretar bem, a Dei Verbum (12) pede atenção ao conteúdo e à unidade de toda a Escritura, à Tradição viva da Igreja e à analogia da fé.
II. A voz dos Santos Padres
Os Padres foram grandes amigos e intérpretes da Palavra, e dela viveram. Vale ouvir alguns deles.
São Jerônimo (séc. IV-V) — o tradutor da Bíblia
Traduziu quase toda a Bíblia para o latim — a Vulgata — e dedicou a vida a estudá-la e explicá-la, retirado em Belém. É dele a frase mais citada sobre a Escritura:
«O desconhecimento das Escrituras é o desconhecimento de Cristo.»
— São Jerônimo, Comentário a Isaías; cf. CIC 133
Santo Agostinho (séc. IV-V) — «toma e lê»
Convertido ao ouvir uma voz repetir «Tolle, lege» («toma e lê») e abrir as cartas de São Paulo (Confissões, VIII), Agostinho ensinou a unidade dos dois Testamentos: «o Novo está oculto no Antigo, e o Antigo se revela no Novo» (cf. CIC 129). É dele também a certeza de que a Igreja não acrescenta nada à Escritura — guarda-a.
Santo Ambrósio e São João Crisóstomo
Ambrósio recomendava a conversa constante com Deus na Escritura: «Quando rezas, falas com Deus; quando lês, Deus fala contigo.» João Crisóstomo, o «boca de ouro», insistia com o povo simples que todos deviam ler as Escrituras em casa, não apenas os monges — ensinamento que seria confirmado, séculos depois, pelo Vaticano II.
A Palavra na voz dos santos
A Igreja inteira, ao longo dos séculos, testemunhou o amor à Palavra. «Ao ler a Bíblia, procuro a Deus; ao rezar, falo com Ele» (cf. Santo Ambrósio). «Toda a Sagrada Escritura é uma só carta de Deus, escrita à humanidade» (cf. São Gregório Magno). «Quando abres o livro sagrado, é o próprio Deus quem te fala» (cf. Santa Teresa de Jesus, que recomendava rezar sempre com um bom livro). Santa Teresinha do Menino Jesus trazia junto ao coração o Evangelho; São Francisco de Assis quis viver «à letra» o Evangelho; e São Josemaría aconselhava entrar nas cenas do Evangelho «como mais um». A Palavra é para todos, e para a vida.
III. O Magistério
Dei Verbum — a grande Constituição sobre a Palavra
A Constituição Dogmática Dei Verbum (1965) é o grande documento do Concílio Vaticano II sobre a Palavra de Deus: trata da Revelação, da Escritura e da Tradição, da inspiração e da leitura orante, e pede que a Escritura seja o alimento de todo o Povo de Deus, amplamente acessível a todos.
Verbum Domini e o Domingo da Palavra
O Papa Bento XVI, na exortação Verbum Domini (2010), retomou a centralidade da Palavra na vida e na missão da Igreja. O Papa Francisco instituiu o Domingo da Palavra de Deus — o 3º domingo do Tempo Comum —, pela carta Aperuit Illis (2019), para que os fiéis conheçam, celebrem e amem mais a Bíblia.
IV. O Catecismo
O Catecismo trata da Revelação e da Escritura logo no início, antes mesmo do Credo. CIC 50-73: a Revelação de Deus e a sua transmissão, que culmina em Cristo. CIC 74-100: a Tradição e a Escritura; o depósito da fé e o Magistério. CIC 101-108: Cristo, Palavra única da Escritura; a inspiração e a verdade. CIC 120: o cânon — a lista dos 46 livros do Antigo e dos 27 do Novo Testamento. CIC 115-119: os sentidos da Escritura (literal e espiritual). CIC 131-133: a Escritura na vida da Igreja — «ignorar as Escrituras é ignorar Cristo».
V. A Sagrada Escritura sobre si mesma
A própria Palavra ensina o que ela é e para que serve. A inspiração e a utilidade: «Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, para refutar, para corrigir e para educar na justiça» (2Tm 3,16-17). A força: «A palavra de Deus é viva e eficaz...» (Hb 4,12); «a tua palavra é a verdade» (Jo 17,17). Cristo, centro das Escrituras: «Começando por Moisés e os profetas, explicou-lhes o que dele se dizia em todas as Escrituras» (Lc 24,27). Ouvir e praticar: «Felizes os que ouvem a palavra de Deus e a observam» (Lc 11,28).
VI. Os cânones e a formação da Bíblia
O que é o «cânon»
«Cânon» vem do grego kanón, «régua», «norma». O cânon das Escrituras é a lista oficial dos livros que a Igreja reconhece como inspirados por Deus e, por isso, norma da fé. Não foram os livros que se impuseram sozinhos, nem uma autoridade que «inventou» a Bíblia: a Igreja, guiada pelo Espírito Santo, reconheceu ao longo do tempo quais escritos traziam a autêntica fé apostólica.
Os dois cânones do Antigo Testamento: Septuaginta e hebraico
Já no tempo de Jesus, o Antigo Testamento circulava em duas formas. A Septuaginta (dos «setenta», abreviada LXX) era a tradução grega feita em Alexandria, a partir do séc. III a.C., para os muitos judeus que viviam fora da Palestina e já falavam grego. Reunia um conjunto mais amplo, que incluía alguns livros escritos ou conservados em grego — os chamados deuterocanônicos. O cânon hebraico, por sua vez, era a coleção dos livros em língua hebraica. O judaísmo veio a fixá-lo, mais tarde, numa lista um pouco mais curta, que não incluía esses livros conservados em grego.
Por que existem dois cânones
Não se trata de alguém ter «acrescentado» ou «tirado» livros. São, na verdade, duas coleções que já conviviam no judaísmo do tempo de Jesus: uma mais ampla, em grego (a Septuaginta), e outra mais restrita, em hebraico. A pergunta, para os cristãos, foi qual delas a Igreja receberia como sua.
Por que a Igreja adotou a Septuaginta
Porque foi a Bíblia de Jesus e dos Apóstolos. O Novo Testamento, ao citar o Antigo, segue em grande parte a Septuaginta; e as primeiras comunidades cristãs, espalhadas pelo mundo de língua grega, receberam-na como Palavra de Deus, com os deuterocanônicos incluídos. Desde o início, portanto, a Igreja teve esses livros como inspirados e assim os transmitiu. Conservar a Septuaginta foi, simplesmente, conservar a Bíblia que os Apóstolos usaram e entregaram à Igreja.
Por isso a diferença aparece no Antigo Testamento. A Bíblia católica tem 46 livros no Antigo Testamento (o cânon mais amplo, da Septuaginta) e 27 no Novo, somando 73. As Bíblias que seguem o cânon hebraico têm 39 livros no Antigo Testamento. Os 7 deuterocanônicos são: Tobias, Judite, 1 e 2 Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico (Sirácida) e Baruc, além de trechos de Ester e Daniel. As Igrejas orientais (ortodoxas) conservam um cânon ainda um pouco mais amplo. Para a Igreja de rito latino, o essencial é que a Bíblia católica guarda a coleção completa recebida dos Apóstolos.
Como a Igreja definiu os livros: os concílios e as disputas
O reconhecimento do cânon foi um caminho, não um decreto isolado. No Novo Testamento, alguns livros foram aceitos desde cedo e sem discussão (os quatro Evangelhos, as principais cartas de Paulo); outros foram debatidos por um tempo (os chamados antilegomena: Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e o Apocalipse), até serem plenamente reconhecidos.
Fragmento de Muratori (c. 170) — a mais antiga lista conhecida de livros do Novo Testamento, já com a maioria deles. Carta festal de Santo Atanásio (367) — a primeira a enumerar exatamente os 27 livros do Novo Testamento como os temos hoje. Concílio de Roma (382), sob o Papa Dâmaso — apresenta a lista dos livros sagrados; é nesse contexto que São Jerônimo prepara a Vulgata. Sínodo de Hipona (393) e Concílios de Cartago (397 e 419) — com Santo Agostinho, fixam para a Igreja o cânon dos 73 livros. Concílio de Florença (1442) — reafirma a lista completa, na união com as Igrejas orientais. Concílio de Trento (1546) — reafirma solene e definitivamente o cânon completo dos 73 livros que a Igreja sempre recebera, incluindo os deuterocanônicos.
Houve disputas reais: São Jerônimo, amante da «verdade hebraica», hesitou quanto aos deuterocanônicos e chegou a chamá-los «eclesiásticos»; mas traduziu-os e submeteu-se ao juízo da Igreja, que sempre os teve como inspirados. A fé não nasce do livro isolado, mas da Igreja que, guiada pelo Espírito, reconhece a Palavra.
VII. A que custo: perseguições e copistas
Conservar a Palavra custou sangue e trabalho. Durante as perseguições, sobretudo a de Diocleciano (a partir de 303), o Império ordenou a entrega e a queima dos livros sagrados dos cristãos. Quem os entregava para serem destruídos era chamado traditor — «traidor», de onde vem a nossa palavra traição. Muitos cristãos preferiram a morte a entregar as Escrituras, dando a vida para que a Palavra não se perdesse.
Nos séculos seguintes, quando ainda não havia imprensa, cada Bíblia era copiada inteiramente à mão. Nos mosteiros, gerações de monges passaram a vida nos scriptoria, copiando com esmero cada página, muitas vezes iluminando-as com ouro e cores. Cada exemplar era um tesouro, fruto de anos de trabalho. É a esses copistas anônimos, e aos mártires, que devemos humanamente a Bíblia que hoje seguramos com facilidade.
VIII. Os livros, as divisões e as quantidades
A palavra «Bíblia» vem do grego biblía, «os livros»: é uma verdadeira biblioteca de 73 livros, escritos ao longo de mais de mil anos, por muitos autores, com um só Autor divino. Organiza-se em dois Testamentos, cada um com seus grandes grupos de livros. O Antigo Testamento, com 46 livros, reúne o Pentateuco (os cinco livros atribuídos a Moisés), os Históricos, os Sapienciais e os Proféticos. O Novo Testamento, com 27 livros, reúne os quatro Evangelhos, os Atos dos Apóstolos, as cartas apostólicas (sobretudo de Paulo) e o Apocalipse. Somando os dois, a Bíblia católica tem 73 livros.
IX. Linha do tempo da Bíblia
A Bíblia foi escrita, reconhecida e transmitida ao longo de muitos séculos, em três grandes fases que se entrelaçam. A composição dos livros vai de aproximadamente 1200 a.C. (as tradições mais antigas do Pentateuco) até o fim do séc. I d.C. (o Apocalipse), em três línguas: hebraico, aramaico e grego. O reconhecimento do cânon acontece do séc. II ao V, nos concílios locais e, de modo definitivo, em Trento (1546). A transmissão e difusão ocupa os séculos seguintes, dos manuscritos à Vulgata, dos monges copistas à imprensa de Gutenberg, até as traduções modernas em milhares de línguas.
X. A difusão através do tempo
Dos manuscritos aos grandes códices
Os textos foram primeiro escritos em rolos de papiro e pergaminho. A partir do séc. II, os cristãos preferiram o códice (folhas costuradas, como um livro), mais prático para procurar passagens. Chegaram até nós manuscritos preciosos, como os Códices Vaticano e Sinaítico (séc. IV). A descoberta dos Manuscritos do Mar Morto (1947) confirmou a fidelidade com que o texto foi transmitido ao longo dos séculos.
A Vulgata e a cópia nos mosteiros
A Vulgata de São Jerônimo tornou-se a Bíblia comum (vulgata) do Ocidente por mais de mil anos. Durante toda a Idade Média, os monges copistas multiplicaram os exemplares à mão, preservando não só a Bíblia, mas boa parte da cultura ocidental.
Capítulos e versículos
Para facilitar a consulta, a Bíblia recebeu a divisão que usamos hoje: os capítulos foram introduzidos por Stephen Langton, arcebispo de Cantuária, por volta de 1205; a divisão em versículos foi feita por Robert Estienne (Estéfano) em 1551. Os autores sagrados não escreveram com esses números: eles são uma ajuda para encontrar as passagens.
A imprensa de Gutenberg e as traduções
Por volta de 1455, a Bíblia foi o primeiro grande livro impresso por Gutenberg, com tipos móveis — uma revolução que a tornou mais acessível. A Igreja promoveu e aprovou traduções fiéis para as línguas do povo, e cuidou contra traduções deturpadas, para preservar a integridade da Palavra.
A Bíblia hoje
Depois do Concílio Vaticano II, a Igreja incentivou fortemente o acesso de todos à Escritura, com boas traduções, o Lecionário na língua do povo e o estímulo à Leitura Orante. Hoje, traduzida em milhares de línguas e disponível também em formato digital, a Bíblia é o livro mais difundido da história — e continua a ser, para a Igreja, Palavra viva de Deus.
XI. Como ler a Bíblia na vida
Como encontrar uma passagem
Toda citação bíblica segue a mesma lógica: primeiro o livro, depois o capítulo e, por fim, o(s) versículo(s). «Jo 3,16» significa Evangelho de João, capítulo 3, versículo 16. «Jo 3,16-18» indica do versículo 16 ao 18; «Jo 3,16.18», apenas os versículos 16 e 18 (não o 17); «Jo 3,16; 6,35», duas passagens diferentes. «Jo 3» é o capítulo inteiro. «Cf.» significa confira ou compare; «s» ou «ss» indica «e o(s) seguinte(s)». Toda Bíblia traz, nas primeiras páginas, um índice com os livros e a lista de abreviaturas.
A Leitura Orante (Lectio Divina)
A tradição da Igreja propõe um método simples e antiquíssimo para rezar com a Palavra, em cinco passos. Ler (lectio): o que o texto diz em si mesmo — ler com calma, mais de uma vez. Meditar (meditatio): o que o texto diz a mim, hoje — deter-se nas palavras que tocam. Orar (oratio): o que respondo a Deus — louvor, pedido, perdão, entrega. Contemplar (contemplatio): permanecer em silêncio, com o coração em Deus. Agir (actio): a que a Palavra me move na vida concreta.
Conselhos práticos
Uma boa tradução católica — como a Edição Pastoral (Paulus), a Ave-Maria ou a da CNBB — ajuda muito, especialmente pelas introduções e notas. Começar pelos Evangelhos é o caminho natural: para conhecer Jesus; depois os Atos, as Cartas e o Antigo Testamento. Ler na fé da Igreja — à luz do Catecismo e do Magistério — evita cair em interpretações isoladas. E, antes de abrir o livro, uma breve oração ao Espírito Santo, o autor da Escritura, pedindo que abra o coração para o que vai ler.
XII. Questões que atravessam qualquer reflexão sobre a Escritura
Por que a Bíblia católica tem 7 livros a mais?
Porque a Igreja conservou o cânon completo da Septuaginta grega, a Bíblia usada por Jesus e pelos Apóstolos, que já incluía os deuterocanônicos. Desde o início, a Igreja os teve como inspirados (CIC 120). As Bíblias que seguem o cânon hebraico, mais curto, não trazem esses 7 livros — mas eles nunca foram «retirados» pela Igreja: sempre fizeram parte da sua Bíblia.
Se a Igreja definiu o cânon, ela está «acima» da Bíblia?
Não. A Igreja não cria a Palavra: reconhece-a e serve-a. Foi a mesma Igreja, guiada pelo Espírito, que gerou, reuniu e discerniu os escritos apostólicos. Escritura, Tradição e Magistério caminham juntos (Dei Verbum, 10).
A Bíblia pode ser interpretada por cada um do seu jeito?
A Escritura nasceu na Igreja e nela deve ser lida. O Magistério é o seu intérprete autêntico, a serviço da Palavra (Dei Verbum, 10; CIC 85-86). A leitura isolada e ao gosto de cada um foi, historicamente, causa de muitas divisões.
A Bíblia tem erros ou contradições?
A Escritura ensina sem erro a verdade da salvação (Dei Verbum, 11). É preciso atenção aos gêneros literários (poesia, história, parábola) e ao contexto. As aparentes contradições resolvem-se lendo cada texto no conjunto e na unidade de toda a Escritura.
Preciso ler a Bíblia inteira de uma vez?
Não. O importante é ler com constância e oração. Comece pelos Evangelhos, acompanhe as leituras da Missa e reze um pouco cada dia: vale mais um pouco todos os dias do que muito de vez em quando.
Ao fim do caminho
Chegando ao fim deste percurso, uma certeza se destaca: a Bíblia não é um livro que pertence ao passado. É Palavra viva, dirigida pessoalmente a cada leitor que se dispõe a abri-la em oração. Deus continua falando por meio dela, hoje como no primeiro século — mas espera encontrar um ouvido disposto, um coração disponível e, se possível, um pouco de silêncio ao redor.
Que a palavra de Jerônimo acompanhe quem toma essa decisão: «o desconhecimento das Escrituras é o desconhecimento de Cristo». Conhecê-las, portanto, é conhecê-Lo. E conhecê-Lo é começar a vida que não se perde.
«Lâmpada para os meus passos é a vossa palavra, e luz para o meu caminho.»
— Salmo 119(118),105
Referências
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 1990. Passagens citadas: Hb 1,1-2; Hb 4,12; Is 40,8; Is 55,11; 2Tm 3,16-17; Jo 17,17; Lc 11,28; Lc 24,27.32; Jo 3,16; 2Pd 1,20-21; Sl 119(118),105.
IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2000. Números citados: 50-141 (a Revelação e a Escritura); 74-100; 105-108; 115-119; 120; 131-133; 85-86; 129.
JERÔNIMO, São. Comentário ao Profeta Isaías, Prólogo; Cartas.
AGOSTINHO, Santo. Confissões, VIII; A Instrução dos Catecúmenos.
AMBRÓSIO, Santo. Sobre os deveres.
GREGÓRIO MAGNO, São. Cartas.
JOÃO CRISÓSTOMO, São. Homilias.
CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Dogmática Dei Verbum sobre a Revelação divina. Roma, 1965 (nn. 2; 9-12; 21-25).
CONCÍLIO DE TRENTO. Decreto sobre os livros sagrados e as tradições a receber (1546).
CONCÍLIO DE FLORENÇA. Bula Cantate Domino (1442).
BENTO XVI. Exortação Apostólica Verbum Domini. Roma, 2010.
FRANCISCO. Carta Apostólica Aperuit Illis (Domingo da Palavra de Deus). Roma, 2019.
PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA. A interpretação da Bíblia na Igreja. Roma, 1993.