Formação

A Quaresma

Os quarenta dias de conversão que preparam a Páscoa — e a Campanha da Fraternidade

Equipe Flamma Cordis · imagem criada por IA

A Quaresma

Os quarenta dias de conversão que preparam a Páscoa — e a Campanha da Fraternidade

«Convertei-vos e crede no Evangelho.»
— Marcos 1,15

Antes de começar

A Quaresma é o grande tempo forte do ano litúrgico. Não um tempo de tristeza nem de meras privações, mas o tempo em que a Igreja, caminhando com Cristo ao deserto, se prepara para celebrar a Páscoa, renovando o seu Batismo e voltando inteiramente o coração para Deus. Quem a reduz a «não comer carne na sexta» perde a maior parte do que ela é.

Estas linhas percorrem a Quaresma por inteiro. Primeiro, o que ela é — o tempo da conversão, no sentido forte da palavra. Depois, o seu caráter batismal e os quarenta dias do deserto com Cristo. A Quarta-feira de Cinzas e os sinais do tempo. O itinerário dos cinco domingos e o Laetare, o domingo da alegria. As três práticas — oração, jejum e esmola — e o propósito quaresmal. O sacramento da Reconciliação. A formação histórica da Quaresma. A voz dos Padres, do Magistério, do Catecismo. E, ao fim, a Campanha da Fraternidade — a Quaresma que se faz serviço, no Brasil, há mais de sessenta anos.

I. O que é a Quaresma: o tempo da conversão

A palavra Quaresma vem do latim quadragesima, «o quadragésimo (dia)», e designa os quarenta dias que preparam a Páscoa. É o grande tempo de conversão do ano litúrgico — a Igreja antiga chamava-o o «sacramento dos quarenta dias» —, um caminho que a comunidade inteira percorre para chegar renovada à celebração da morte e ressurreição do Senhor. A Quaresma não é um fim em si mesma: toda ela está ordenada à Páscoa, seu termo e sua razão de ser.

Mas é preciso entender bem a palavra conversão. No Evangelho, ela traduz o grego metánoia, que significa muito mais do que «melhorar um pouco» ou «largar um mau hábito»: é uma mudança radical do coração e da mente, uma reviravolta de toda a existência, que deixa de girar em torno de si mesma para voltar-se a Deus. «Convertei-vos e crede no Evangelho» (Mc 1,15) é o primeiro grito de Jesus — e é o programa de toda a Quaresma.

O Catecismo ensina que existem como que duas conversões. A primeira e fundamental deu-se no Batismo, pelo qual se passa da morte do pecado à vida de Deus (CIC 1427). Mas, porque o cristão continua frágil e pecador, essa conversão deve prosseguir a vida toda: é a «segunda conversão», uma tarefa ininterrupta para toda a Igreja, que «encerra no seu próprio seio os pecadores» e está «sempre a necessitar de purificação» (CIC 1428). Santo Ambrósio falava, por isso, de duas águas: «a água e as lágrimas — a água do Batismo e as lágrimas da penitência» (cf. CIC 1429). A Quaresma é o tempo privilegiado dessa segunda conversão.

E convém recordar, desde já, que a conversão é antes de tudo obra da graça: não é mérito do homem, mas dom de Deus, que «move o coração e o converte a si» (CIC 1432). Converte-se porque Ele primeiro atrai. Por isso a Quaresma não é um esforço de pura força de vontade, mas uma abertura humilde à ação de Deus.

II. A Quaresma, caminho batismal

O Concílio Vaticano II recorda que este tempo tem um duplo caráter: «A Quaresma dispõe os fiéis à celebração do mistério pascal, principalmente pela recordação ou preparação do Batismo e pela penitência» (Sacrosanctum Concilium, 109). As duas dimensões — batismal e penitencial — são, no fundo, uma só: converter-se é reviver a graça do próprio Batismo.

A dimensão batismal tem raízes muito antigas. Desde os primeiros séculos, a Quaresma foi o tempo em que os catecúmenos faziam a sua preparação final para serem batizados na Vigília Pascal. Essa tradição foi restaurada pelo Concílio e vive hoje no caminho da iniciação dos adultos (RICA), com os seus escrutínios: nos 3º, 4º e 5º domingos da Quaresma proclamam-se as grandes páginas batismais do Evangelho de João — a Samaritana (a água viva), o Cego de nascença (a luz) e a ressurreição de Lázaro (a vida) —, que apresentam Cristo como a água, a luz e a vida que o Batismo comunica.

E os que já são batizados? Também para eles a Quaresma é batismal: é o tempo de recuperar a graça recebida e de preparar-se para renovar solenemente as promessas do Batismo na Vigília Pascal, renunciando ao pecado e professando de novo a fé. Assim, catecúmenos e fiéis caminham juntos para a mesma fonte.

III. Os quarenta dias: o deserto com Cristo

O número quarenta não é escolhido ao acaso: na Escritura, marca sempre um tempo de prova, purificação e preparação para um encontro com Deus. Toda a história da salvação está pontuada por quarentas. O dilúvio: choveu quarenta dias e quarenta noites, e das águas saiu um mundo purificado (Gn 7,12). Israel no deserto: quarenta anos caminhou o povo, provado e educado por Deus, da escravidão do Egito à Terra Prometida (Dt 8,2). Moisés no Sinai: quarenta dias e quarenta noites na montanha, antes de receber a Lei (Ex 24,18). Elias: quarenta dias e quarenta noites a caminho do monte Horeb (1Rs 19,8). Jesus: quarenta dias e quarenta noites no deserto, em jejum, antes de iniciar a sua missão (Mt 4,2).

A Quaresma recolhe toda essa herança: são os quarenta dias de deserto. E o deserto, na Bíblia, é ambíguo — lugar de prova e tentação, mas também lugar do encontro, onde Deus fala «ao coração» (cf. Os 2,16). «Pela celebração anual da Quaresma, a Igreja une-se ao mistério de Jesus no deserto» (CIC 540): entra-se no deserto com Cristo para sair dele, como Ele, mais forte e voltado para o Pai.

As três tentações que Jesus venceu no deserto (Mt 4,1-11) são o espelho de todo combate espiritual. Cristo, o novo Adão e o novo Israel, vence precisamente onde Adão e o povo tinham caído: recusa transformar as pedras em pão (a cobiça do ter), rejeita os reinos oferecidos pelo tentador (a sede de poder) e não tenta a Deus do alto do Templo (a vaidade e o orgulho). São as três feridas do coração humano, que São João descreve como «a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida» (1Jo 2,16). A Quaresma é o tempo de combatê-las, com as mesmas armas de Cristo: a Palavra de Deus, a oração e o jejum — «não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus» (Mt 4,4).

IV. A Quarta-feira de Cinzas e os sinais da Quaresma

A Quaresma tem um começo e um fim bem precisos: começa na Quarta-feira de Cinzas e desemboca no Tríduo Pascal — isto é, termina na tarde da Quinta-feira Santa, imediatamente antes da Missa da Ceia do Senhor, quando se abre o Tríduo. Todo o tempo é, assim, um grande caminho que vai das cinzas à Páscoa: da humildade do pó à glória da Ressurreição. Compõe-se da Quarta-feira de Cinzas e dos dias seguintes, de cinco semanas com os seus cinco domingos, e da Semana Santa, que se inicia no Domingo de Ramos. A sua cor é o roxo, sinal de penitência e de conversão.

O gesto que a inaugura é a imposição das cinzas, que dá nome e tom a todo o tempo. As cinzas são feitas dos ramos benzidos no Domingo de Ramos do ano anterior, queimados e reduzidos a pó — e já nisto há uma lição: a glória efêmera dos «hosanas», como toda glória humana, acaba em cinza, e só o amor permanece. Cobrir-se de cinza e de pó era, na Bíblia, sinal de luto, humildade e arrependimento: assim fizeram os ninivitas à pregação de Jonas (Jn 3,6) e o justo Jó (Jó 42,6).

Por isso, ao impor as cinzas, a Igreja usa uma de duas fórmulas, ambas tiradas da Escritura, que resumem o sentido do gesto e de toda a Quaresma: «Lembra-te de que és pó e ao pó voltarás» (cf. Gn 3,19) — a verdade da condição frágil e mortal, convite à humildade; ou «Convertei-vos e crede no Evangelho» (Mc 1,15) — a esperança que acompanha essa verdade, pois reconhecer-se pó é o primeiro passo para voltar a Deus. As cinzas não são sinal de tristeza mórbida, mas de conversão: o que importa não é a cinza na testa, mas o coração que muda — «rasgai os vossos corações, e não as vestes» (Jl 2,13).

Ao longo das semanas, a liturgia assume um tom sóbrio, que educa o coração para a espera. Omite-se o «Aleluia» — a aclamação pascal por excelência, que ficará «guardada» para irromper na Vigília —, suprime-se o «Glória» nos domingos, não se enfeita o altar com flores e o canto e a música são mais contidos. Tudo isso cria um silêncio que tornará ainda mais fulgurante a explosão de alegria da noite de Páscoa. A sobriedade não é tristeza: é a quietude de quem se prepara para uma grande festa.

V. Os domingos da Quaresma: o itinerário

Os cinco domingos da Quaresma não são iguais nem avulsos: traçam um itinerário que conduz o fiel, passo a passo, do deserto à Páscoa. Os dois primeiros são os mesmos todos os anos; os seguintes variam conforme o ciclo (Anos A, B e C), mas sempre aprofundam a conversão e preparam o Batismo.

1º Domingo — as Tentações. Todos os anos a Igreja contempla Jesus tentado no deserto (Mt 4; Mc 1; Lc 4). É o pórtico da Quaresma: entra-se no deserto com Cristo para, com Ele, vencer o mal. 2º Domingo — a Transfiguração. Jesus revela a sua glória no alto do monte. No meio do caminho da cruz, a Igreja recebe uma antecipação da Páscoa, que dá força e esperança para prosseguir. 3º, 4º e 5º Domingos — as grandes catequeses. No Ano A (e sempre que há catecúmenos), proclamam-se as três páginas batismais de João: a Samaritana, o Cego de nascença e a ressurreição de Lázaro. Nos Anos B e C leem-se outros evangelhos de conversão e de misericórdia — como, no 4º domingo do Ano C, a parábola do filho pródigo. Domingo de Ramos da Paixão do Senhor — abre a Semana Santa: aclama-se a entrada de Jesus em Jerusalém e proclama-se a narrativa da Paixão. Daí a Quaresma desemboca no Tríduo Pascal.

A Quaresma é, assim, uma subida: do deserto (1º domingo) à montanha da glória (2º domingo), e da montanha a Jerusalém, para subir com o Senhor ao mistério da sua Páscoa.

VI. O domingo da alegria: Laetare

No meio do caminho penitencial, a Igreja concede um domingo da alegria — uma pausa luminosa que anuncia a Páscoa já próxima. É o 4º domingo da Quaresma, chamado Laetare, da primeira palavra latina da antífona de entrada: «Laetare, Ierusalem» — «Alegra-te, Jerusalém, e exultai todos vós que a amais» (Is 66,10).

Neste domingo, o sacerdote pode usar a cor rosa (rosácea) nas vestes, no lugar do roxo; permite-se também ornar o altar com flores e dar mais espaço à música. É como se, no meio da penitência, raiasse por um instante a luz da festa que se aproxima. O rosa é precisamente o roxo «aclarado» pela alegria que vem chegando: a Igreja respira, anima os seus filhos e lembra-lhes que vale a pena perseverar, porque a Páscoa está perto.

VII. As três práticas e o propósito quaresmal

No Evangelho da Quarta-feira de Cinzas, Jesus apresenta as três obras que são a alma deste tempo: «Quando orares... quando jejuares... quando deres esmola...» (Mt 6,1-18). São as três armas da Quaresma, e não se separam: cada uma ordena uma das relações fundamentais da vida — com Deus, consigo mesmo e com o próximo. E o próprio Jesus põe uma condição a todas: que sejam feitas «em segredo», longe da vaidade de ser visto, pois o Pai «que vê no segredo recompensará».

A oração — voltar o coração para Deus

A oração é a primeira, porque a conversão começa pelo encontro com Deus. Rezar mais e melhor — a Palavra lida com atenção e meditada, a participação mais viva na Missa, o silêncio, o terço, a Via-Sacra — é deixar que Deus reoriente a vida inteira. Sem oração, o jejum vira dieta e a esmola vira filantropia; com ela, tudo se torna caminho de intimidade com o Pai.

O jejum — libertar-se de si mesmo

O jejum ensina o domínio de si e a verdadeira fome. Privar-se do alimento, ou de outras coisas boas, lembra ao corpo e à alma que só Deus sacia, e liberta o coração da escravidão dos apetites. Mas a Escritura adverte contra o jejum vazio. Por Isaías, Deus pergunta: «Acaso é este o jejum que me agrada?... O jejum que eu quero não é antes repartir o teu pão com o faminto, libertar os oprimidos e não te esconderes diante da tua própria carne?» (Is 58,5-7). Jejuar de comida e não jejuar do pecado seria enganar-se a si mesmo.

A esmola — abrir-se ao próximo

A esmola — a caridade concreta para com os pobres — é a prova de que a conversão é verdadeira, e os Padres a entendiam não como simples generosidade, mas como ato de justiça: aquilo de que a pessoa se priva pelo jejum converte-se em dom para quem tem necessidade. Assim, as três práticas formam um só movimento: a oração une a Deus, o jejum liberta de si mesmo, e a esmola entrega ao irmão. É a caridade que dá valor a tudo — «o jejum é a alma da oração, e a misericórdia é a vida do jejum», diziam os antigos.

O propósito quaresmal

Para que a Quaresma não se perca em boas intenções vagas, a tradição propõe o propósito quaresmal: um plano concreto de conversão, assumido logo no início do tempo, nas três frentes. Convém que seja simples e realista — poucos propósitos bem cumpridos valem mais do que muitos abandonados na primeira semana.

Na oração: participar da Missa também em algum dia de semana, rezar a Via-Sacra (tradicionalmente às sextas-feiras), retomar o terço diário, fazer a leitura orante da Palavra, visitar o Santíssimo. Em muitas paróquias promove-se a iniciativa «24 Horas para o Senhor», de adoração e confissões. No jejum e na penitência: guardar o jejum e a abstinência da Quarta-feira de Cinzas e da Sexta-feira Santa, a abstinência das sextas-feiras, e escolher uma renúncia concreta que realmente custe (um gosto, um hábito, o excesso de telas), oferecida a Deus. Na esmola e na caridade: praticar gestos concretos de partilha e de serviço — visitar doentes e idosos, ajudar quem passa necessidade, reconciliar-se com alguém.

Este propósito é, no fundo, o modo prático de entrar no deserto com Cristo: um caminho pensado diante de Deus para que, ao chegar à Páscoa, o coração esteja de fato mais livre, mais orante e mais caridoso do que no começo.

VIII. A Reconciliação: o sacramento da Quaresma

Se a Quaresma é o tempo da conversão, o seu sacramento próprio é a Penitência, ou Confissão. Nela, o pecador volta ao Pai como o filho pródigo (Lc 15), e recebe, pela absolvição, o perdão que o reconcilia com Deus e com a Igreja. A Igreja antiga reservava precisamente para a Quaresma o longo caminho dos penitentes, que culminava na reconciliação da Quinta-feira Santa; hoje, a Igreja insiste em que este seja o tempo por excelência para buscar a confissão e preparar-se assim para a Páscoa com o coração limpo.

A verdadeira penitência não é apenas um remorso ou uma vergonha: é a contrição, isto é, «uma dor da alma e uma detestação do pecado cometido, com o propósito de não mais pecar» (CIC 1451). E nasce do amor: a contrição é mais perfeita quando brota, não do medo do castigo, mas do amor a Deus ofendido. A Quaresma educa precisamente esse olhar — reconhecer o próprio pecado com verdade e, ao mesmo tempo, confiar sem medida na misericórdia que espera.

IX. Formação e história da Quaresma

A Quaresma, como o Advento, foi-se formando ao longo dos primeiros séculos. No início, a preparação para a Páscoa era muito breve — apenas o jejum de um ou dois dias antes da festa, ligado ao próprio Tríduo. Foi no século IV que a Quaresma tomou a forma de um tempo de quarenta dias: o primeiro Concílio de Niceia (325) já se refere à «quadragésima» como algo conhecido na Igreja.

Essa Quaresma nasceu do encontro de duas realidades. De um lado, a preparação dos catecúmenos, que seriam batizados na Vigília Pascal e percorriam, nestes dias, uma intensa caminhada de instrução, oração e escrutínios. De outro, a ordem dos penitentes: os que haviam cometido pecados graves faziam uma penitência pública (a chamada exomologese) e preparavam-se para ser reconciliados com a Igreja na Quinta-feira Santa. Com o tempo, toda a comunidade passou a unir-se a esse caminho, e a Quaresma tornou-se o tempo penitencial de todos os fiéis.

Como os domingos nunca foram dias de jejum — por serem sempre a Páscoa semanal, celebração da Ressurreição —, foi preciso acrescentar alguns dias para completar quarenta dias efetivos de jejum antes da Páscoa. Assim, por volta dos séculos VI-VII, fixou-se o início da Quaresma na Quarta-feira de Cinzas (o «Caput Quadragesimae», a «cabeça da Quaresma»), quatro dias antes do 1º domingo. A imposição das cinzas a todos os fiéis generalizou-se a partir dos séculos X-XI. A disciplina do jejum, rigorosíssima na Antiguidade, foi-se adaptando ao longo dos séculos, conservando sempre o seu sentido. O Concílio Vaticano II, por fim, restaurou o catecumenato e devolveu à Quaresma toda a sua força de preparação batismal e comunitária.

X. A voz dos Padres e dos santos

«Aquilo que cada cristão deve fazer em todo o tempo, deve agora cumpri-lo com maior solicitude e devoção, para que chegue aos dias pascais purificado em corpo e alma.»
— São Leão Magno, Sermão sobre a Quaresma
«Honras a Quaresma? Não é o jejum da boca que Deus procura, mas o das obras más. De que serve não comer carne e devorar o próprio irmão? Jejuem também os olhos, os ouvidos, as mãos e todo o corpo do pecado.»
— São João Crisóstomo, Homilias
«Há duas conversões: a da água e a das lágrimas — a água do Batismo e as lágrimas da penitência.»
— Santo Ambrósio; cf. CIC 1429

Para os Padres, a Quaresma é uma escola de caridade: o fim da penitência não é o sacrifício em si, mas um coração novo, livre do pecado e aberto a Deus e ao próximo.

«Comecemos agora, irmãos, a servir ao Senhor nosso Deus, porque até aqui pouco ou nada progredimos.»
— São Francisco de Assis

São Francisco, que recebeu as chagas de Cristo após uma quaresma de oração no monte, é testemunha de que a penitência não afasta da alegria: conduz, pela cruz, à Páscoa.

XI. O Magistério e o Catecismo

O caráter e as práticas da Quaresma estão fixados na Constituição Sacrosanctum Concilium (n. 109-110), que pede que a penitência quaresmal seja «não só interna e individual, mas também externa e social», e que se dê especial relevo ao Batismo e à penitência. A disciplina do jejum e da abstinência foi renovada pelo Papa Paulo VI, na Constituição Apostólica Paenitemini (1966), e recolhida no Código de Direito Canônico (cân. 1249-1253): a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira Santa são dias de jejum e abstinência; todas as sextas-feiras são dias de penitência, em memória da morte do Senhor. Todos os anos, além disso, o Papa dirige à Igreja uma Mensagem para a Quaresma, propondo um caminho concreto de conversão.

Números-chave do Catecismo: CIC 540 — os quarenta dias de Jesus no deserto; a Igreja se une a esse mistério na Quaresma. CIC 1427-1429 — as duas conversões. CIC 1430-1433 — a conversão do coração, interior, movida pela graça. CIC 1434-1439 — as formas de penitência: jejum, oração e esmola; o retorno do filho pródigo. CIC 1438 — os tempos e dias de penitência, em especial a Quaresma. CIC 1450-1460 — o sacramento da Penitência.

XII. A Campanha da Fraternidade — a Quaresma que se faz serviço

O que é

A Campanha da Fraternidade (CF) é uma iniciativa da Igreja no Brasil, coordenada pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), realizada todos os anos durante a Quaresma. A cada ano ela escolhe um tema — um problema concreto da sociedade que precisa de conversão e de ação — e um lema, em geral uma frase da Escritura, que aponta o caminho. Assim, a Quaresma, tempo de conversão pessoal, torna-se também tempo de conversão social: a Igreja inteira se volta, com oração e ação, para uma necessidade dos irmãos.

O seu objetivo é despertar a fraternidade e a solidariedade, educando o povo de Deus a viver a justiça e a caridade, e a sentir-se corresponsável pela transformação da realidade à luz do Evangelho. Não é apenas uma campanha de arrecadação: é uma grande catequese social que une fé e vida.

Como nasceu

A Campanha da Fraternidade foi idealizada em 1961 por sacerdotes ligados à Cáritas Brasileira, que buscavam unir a renovação da Igreja a um gesto concreto de ajuda aos mais pobres. Foi vivida pela primeira vez em 1962, na Arquidiocese de Natal (RN), e, em 1964, realizou-se pela primeira vez em nível nacional, passando depois a ser coordenada pela CNBB. Desde então, acontece ininterruptamente a cada Quaresma, tornando-se uma das mais belas e conhecidas iniciativas da Igreja no Brasil — hoje já com mais de sessenta anos de história.

Ao longo dos anos, a CF abordou os temas mais variados: a família, a saúde, a educação, a água, a terra, a paz, os povos indígenas, os migrantes, o cuidado com a «casa comum», a superação da violência, e tantos outros. De tempos em tempos — em geral a cada cinco anos —, ela é realizada de modo ecumênico (a Campanha da Fraternidade Ecumênica), em comunhão com outras Igrejas cristãs, dando um testemunho conjunto de fraternidade.

Como acontece

Abertura na Quarta-feira de Cinzas: a Campanha é lançada no dia em que começa a Quaresma, acompanhando todo o tempo quaresmal. Tema e lema: o tema aponta a realidade a transformar; o lema, iluminado pela Palavra de Deus, aponta a direção da mudança. Texto-base e materiais: a CNBB publica um texto-base e subsídios para estudo e reflexão nas comunidades. O «gesto concreto»: cada comunidade e cada fiel são convidados a um gesto prático de caridade e de compromisso em favor do tema do ano — para que a reflexão não fique só em palavras. A Coleta da Solidariedade: no Domingo de Ramos, recolhe-se em todo o país a coleta nacional da solidariedade. Parte dela permanece na diocese, para projetos sociais locais, e parte vai para o Fundo Nacional de Solidariedade, que ajuda as regiões mais necessitadas.

O sentido cristão da Campanha

A Campanha da Fraternidade traduz, em gesto, a esmola quaresmal de que falou Jesus (Mt 6,1-4). Ela recorda que não há verdadeira conversão a Deus sem conversão ao irmão: «se alguém disser: Amo a Deus, mas odeia o seu irmão, é mentiroso» (1Jo 4,20). E coloca diante dos olhos o critério do Juízo final, em que o próprio Cristo se identifica com os pequenos: «Tive fome e me destes de comer... tudo o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes» (Mt 25,35-40). Assim, a Campanha une as três práticas da Quaresma: a oração (rezar pelo tema e pelos que sofrem), o jejum (privar-se para partilhar) e a esmola (o gesto concreto e a coleta). É a Quaresma que se faz serviço, e a fé que se faz caridade.

XIII. Questões que atravessam qualquer reflexão sobre a Quaresma

Quem é obrigado a jejuar e a fazer abstinência, e em que idade?

Segundo a disciplina da Igreja (cân. 1251-1252), a abstinência de carne obriga a partir dos 14 anos; o jejum (fazer uma só refeição completa no dia) obriga dos 18 aos 59 anos. Os dias obrigatórios de jejum e abstinência são a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira Santa. Doentes, grávidas, idosos e quem realiza trabalhos pesados estão dispensados: a Igreja pede penitência, não dano à saúde.

Quaresma é só «não comer carne»?

Não. A abstinência de carne é apenas um sinal exterior de algo muito maior: a conversão do coração. Reduzir a Quaresma a uma questão alimentar seria perder o essencial. O verdadeiro jejum, diz Isaías, é também libertar o oprimido e repartir o pão (Is 58). Cada um pode escolher penitências concretas — deixar algo que lhe custa, vencer um vício, dedicar tempo à oração e à caridade — contanto que o fim seja voltar-se para Deus.

Por que impor cinzas na cabeça?

Desde a Antiguidade, cobrir-se de cinzas era sinal de luto e de arrependimento (cf. Jn 3; Jó 42,6). Ao recebê-las, reconhecemos duas verdades: que somos frágeis e mortais («és pó») e que precisamos converter-nos («crede no Evangelho»). É um gesto de humildade que dá o tom de todo o tempo.

Os domingos da Quaresma «contam» como Quaresma?

Sim, fazem parte do tempo, mas nunca são dias de jejum: todo domingo é a Páscoa semanal, memória da Ressurreição, e por isso é sempre dia de alegria. Por isso, aliás, a Quaresma precisou começar numa quarta-feira, para somar quarenta dias efetivos de penitência sem contar os domingos.

Por que confessar-se justamente na Quaresma?

Porque a conversão é o coração deste tempo, e a Confissão é o seu sacramento. Não que Deus só perdoe na Quaresma — Ele perdoa sempre —, mas a Igreja oferece agora o ambiente, a graça e o impulso para dar esse passo e chegar à Páscoa reconciliados, com o coração novo que a Vigília Pascal celebra.

Ao fim do caminho

Chegando ao fim deste percurso, uma certeza se destaca: a Quaresma é a pedagogia da misericórdia. Em quarenta dias, a Igreja ensina a ir ao fundo de si mesmo, reconhecer o pó e o pecado, e deixar-se levantar pela graça de Deus. Não há drama nessa descida — há verdade. E não há tristeza nessa penitência — há promessa, pois a Quaresma inteira caminha para a Páscoa, e cada cinza traz dentro de si o eco de uma noite de luz.

Quem entra no deserto com Cristo e com Ele luta, com Ele reza, com Ele jejua e com Ele parte o pão com os pobres, sai outra pessoa. É isto que a Quaresma pretende em cada ano, para cada batizado — e é o que a Campanha da Fraternidade, no Brasil, veio tornar visível e concreto. Deus faça de cada pó um filho, de cada filho um irmão, e de cada irmão um gesto de amor.

«Rasgai os vossos corações, e não as vossas vestes.»
— Joel 2,13

Referências

BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 1990. Passagens citadas: Gn 7,12; Gn 3,19; Ex 24,18; Dt 8,2; 1Rs 19,8; Sl 51; Is 58,1-11; Is 66,10; Jl 2,12-18; Jn 3,6; Jó 42,6; Os 2,16; Mt 4,1-11; 6,1-18; 25,31-46; Lc 15,11-32; 1Jo 2,16; 4,20; 2Cor 5,20-6,2; Tg 2,14-17.

CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Sacrosanctum Concilium, 109-110.

PAULO VI. Constituição Apostólica Paenitemini. Roma, 1966.

IGREJA CATÓLICA. Código de Direito Canônico, cân. 1249-1253.

IGREJA CATÓLICA. Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos (RICA).

IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2000. Números citados: 540; 1427-1439; 1450-1460; 2443-2449.

LEÃO MAGNO, São. Sermões sobre a Quaresma.

JOÃO CRISÓSTOMO, São. Homilias.

AMBRÓSIO, Santo. De Paenitentia.

AGOSTINHO, Santo. Sermões sobre a Quaresma e a esmola.

FRANCISCO DE ASSIS, São. Admonições e Regra.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB). Textos-base anuais da Campanha da Fraternidade (desde 1964).

por Equipe Flamma Cordis · 11/10/2026 às 12:45

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