A Crisma (Confirmação)
O selo do Espírito Santo: completar a graça do Batismo
Equipe Flamma Cordis · imagem criada por IA
A Crisma (Confirmação)
O selo do Espírito Santo: completar a graça do Batismo
«Recebereis uma força, a do Espírito Santo que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas.»
— Atos 1,8
Antes de começar
Depois do Batismo, chega-se ao segundo sacramento da iniciação cristã: a Confirmação, entre nós chamada Crisma. Com o Batismo e a Eucaristia, ela completa a iniciação: «pelo sacramento da Confirmação, os batizados são mais perfeitamente ligados à Igreja e enriquecidos com uma força especial do Espírito Santo» (Lumen Gentium, 11).
Estas linhas percorrem a Crisma por inteiro. Primeiro, o que ela é — selo e aperfeiçoamento da graça batismal. Depois, o seu fundamento na Escritura (Pentecostes e a prática dos Apóstolos), e como era celebrada na Igreja primitiva. Em seguida, os seus efeitos, os sete dons do Espírito Santo com exemplos práticos, o rito atual, o ministro, os padrinhos e a simbologia dos sinais. E, ao fim, a voz dos Padres e dos santos, o Catecismo e as questões recorrentes.
I. O que é a Crisma
A Confirmação é o sacramento que completa e aperfeiçoa a graça do Batismo. Se no Batismo se nasce para a vida divina, na Confirmação se recebe a plenitude do Espírito Santo para crescer, amadurecer e testemunhar essa vida. O nome Confirmação indica que ela confirma (fortalece e consolida) a fé batismal; o nome Crisma vem do Santo Crisma, o óleo perfumado com que se realiza a unção — e «Crisma» tem a mesma raiz de «Cristo», o Ungido.
Não se deve entendê-la como um «sacramento da maturidade» no sentido de simples decisão humana, nem como uma «formatura» da catequese. É, antes, o dom de Deus que torna o cristão plenamente capacitado a viver como testemunha de Cristo no mundo — tornando-o, por assim dizer, «soldado de Cristo» na antiga expressão, não para a guerra, mas para a coragem de confessar a fé.
II. O fundamento na Escritura
Toda a história da salvação é atravessada pela promessa do Espírito. Os profetas o anunciaram (cf. Jl 3,1-2: «derramarei o meu Espírito sobre toda a carne»), e o próprio Jesus — que em todo o seu agir foi conduzido pelo Espírito — prometeu aos discípulos que o enviaria: «Recebereis uma força, a do Espírito Santo que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas» (At 1,8).
Pentecostes é o grande cumprimento: sobre os Apóstolos reunidos, o Espírito desce em forma de línguas de fogo, e eles — antes amedrontados, fechados no Cenáculo — saem com coragem a anunciar Cristo a todos os povos (At 2). Esse é o modelo de toda Confirmação: o Espírito que transforma o medo em ousadia.
E os Apóstolos, desde o início, comunicam esse dom aos batizados por um gesto próprio, distinto do Batismo: a imposição das mãos. Os Atos narram que, batizados os samaritanos, Pedro e João foram enviados, «impuseram as mãos sobre eles, e eles receberam o Espírito Santo» (At 8,14-17); o mesmo se dá em Éfeso (At 19,5-6). Muito cedo, a essa imposição das mãos uniu-se uma unção com óleo perfumado, para exprimir melhor o dom do Espírito — a «unção» que faz do cristão um outro Cristo (cf. 2Cor 1,21-22: «Deus nos ungiu, marcou-nos com o seu selo e pôs em nossos corações o penhor do Espírito»).
III. Como era celebrada na Igreja primitiva
Nos primeiros séculos, a iniciação cristã era normalmente um só ato unificado, celebrado de ordinário na Vigília Pascal: o catecúmeno era batizado na água, ungido com o Crisma e admitido à Eucaristia, tudo na mesma celebração, presidida pelo bispo. Batismo e Confirmação apareciam como dois momentos de um único movimento: nascer da água e ser selado pelo Espírito.
Com o crescimento da Igreja, Oriente e Ocidente seguiram caminhos distintos, que perduram até hoje. No Oriente — manteve-se a unidade dos três sacramentos: o próprio presbítero que batiza confere logo a «crismação» (Confirmação) com o Santo Crisma consagrado pelo bispo, e dá a Eucaristia — mesmo às crianças pequenas. Assim se preserva visivelmente a unidade da iniciação. No Ocidente (Igreja latina) — para significar a comunhão com o bispo, sucessor dos Apóstolos, reservou-se a ele a Confirmação. Como o bispo não podia estar presente a todo batismo, a Confirmação passou a ser celebrada depois, separadamente — o que permitiu também preparar os crismandos e sublinhar o compromisso pessoal com a fé recebida no Batismo.
Essa diferença não é oposição, mas duas ênfases legítimas de uma mesma fé: o Oriente destaca a unidade da iniciação; o Ocidente, a ligação ao bispo e o amadurecimento da resposta pessoal. Em ambos, o essencial é o mesmo: o selo do Espírito Santo pela unção com o Crisma.
IV. Os efeitos da Confirmação
A Confirmação, como o Batismo, imprime na alma um caráter indelével — por isso também ela se recebe uma só vez. Os seus efeitos, que são um crescimento e aprofundamento da graça batismal, são principalmente (cf. CIC 1303).
Enraíza mais profundamente na filiação divina — faz dizer com mais verdade «Abbá, Pai» (Rm 8,15). Une mais firmemente a Cristo — liga de modo mais perfeito à sua pessoa e à sua missão. Aumenta os dons do Espírito Santo — concede a plenitude dos sete dons, para agir sob a moção do Espírito. Torna mais perfeito o vínculo com a Igreja — corresponsáveis pela vida e missão da comunidade. Dá força especial para testemunhar e defender a fé — «uma força especial do Espírito Santo» para confessar a Cristo com palavras e obras, sem jamais se envergonhar da cruz (cf. Lc 12,8-12).
É esse o fruto mais visível: do mesmo modo que os Apóstolos passaram do medo à coragem em Pentecostes, o crismado recebe a graça de ser testemunha corajosa de Cristo no meio do mundo.
V. Os sete dons do Espírito Santo
A Confirmação confere em plenitude os sete dons do Espírito Santo (cf. Is 11,1-2), que são disposições permanentes que tornam a alma dócil às moções de Deus. Convém não só nomeá-los, mas exemplificá-los, para que se reconheça como cada dom age na vida concreta.
Sabedoria — faz gostar das coisas de Deus e ver tudo com os olhos d'Ele. Por exemplo: diante de uma oportunidade de ganho desonesto, o sábio prefere a amizade com Deus ao dinheiro, porque «saboreia» que Deus vale mais.
Entendimento — faz penetrar mais fundo nas verdades da fé. Por exemplo: ao ouvir o Evangelho ou rezar o Credo, de repente se «entende por dentro» o sentido de uma passagem que antes parecia só palavras.
Conselho — ajuda a discernir, no momento, o que agrada a Deus. Por exemplo: numa decisão difícil — aceitar ou não um emprego, como reagir a uma ofensa —, o dom do conselho ilumina o caminho reto, às vezes pela voz da consciência ou de um bom conselheiro.
Fortaleza — dá coragem firme para o bem e para resistir ao mal. Por exemplo: manter a fé diante da zombaria dos colegas, defender um inocente, ou suportar com paz uma doença ou perseguição — como os mártires.
Ciência — faz reconhecer nas criaturas a mão do Criador, sem se prender a elas. Por exemplo: diante da beleza da natureza ou de um filho, elevar-se a Deus em gratidão, em vez de fazer das coisas um fim em si mesmas.
Piedade — faz amar a Deus como Pai e servir ao próximo com ternura. Por exemplo: rezar com afeto filial, e tratar os pobres, os idosos e os que sofrem como verdadeiros irmãos.
Temor de Deus — é o respeito amoroso que teme ofender a Deus — não por medo do castigo, mas por amor. Por exemplo: recuar diante de um pecado não por medo de ser pego, mas por não querer magoar Aquele que ama.
Os dons são como velas que, abertas, deixam o vento do Espírito conduzir o barco da vida — ao contrário de remar sozinho, com as próprias forças.
Dos dons brotam os frutos. Quando os dons são bem acolhidos, a vida começa a dar os frutos do Espírito: «amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio de si» (Gl 5,22-23; a tradição acrescenta ainda a longanimidade, a modéstia, a continência e a castidade — cf. CIC 1832). Enquanto os dons são a raiz (a docilidade ao Espírito), os frutos são o que aparece na prática. Por exemplo: a paz que permanece mesmo nas contrariedades; a paciência com um familiar difícil; a mansidão de quem não revida uma ofensa; o domínio de si diante de um vício; a alegria que não depende das circunstâncias. É por esses frutos que se reconhece uma Confirmação vivida: «pelos seus frutos os conhecereis» (Mt 7,16). Pela Crisma, o cristão recebe o Espírito não para guardá-lo, mas para dar fruto que permaneça (cf. Jo 15,16).
VI. Como é celebrada hoje
O rito essencial da Confirmação é a unção com o Santo Crisma na fronte, feita pela imposição da mão do ministro, com as palavras: «N., recebe, por este sinal, o Espírito Santo, o Dom de Deus». Antes da unção, o bispo estende as mãos sobre todos os crismandos, invocando o Espírito Santo e os seus sete dons. Ao fim, dá a cada um a saudação da paz, sinal de comunhão com o bispo e com toda a Igreja (na forma antiga, um leve toque na face, que lembrava a prontidão para suportar as provações por Cristo).
O ministro
Na Igreja latina, o ministro ordinário é o Bispo, para manifestar o vínculo do crismado com a Igreja apostólica e a sua missão universal. Por necessidade, o bispo pode delegar a um presbítero; e todo presbítero pode confirmar ao batizar um adulto ou ao receber alguém na plena comunhão, bem como em perigo de morte. O Crisma usado é sempre o consagrado pelo bispo na Missa do Crisma.
O padrinho e o nome
Convém que o padrinho de Crisma seja o mesmo do Batismo, para exprimir a unidade dos dois sacramentos; deve ser católico, já confirmado, que comunga e leva vida de fé. O crismando confirma, assim, as promessas do seu Batismo, agora de modo pessoal e consciente. É tradição acrescentar o nome de um santo como patrono — modelo e intercessor para a vida que começa a dar fruto.
VII. A simbologia explicada
Também aqui, cada sinal exprime uma verdade.
A unção com o óleo — o azeite fortalece, cura, perfuma e consagra. Ungir significa comunicar o Espírito e marcar a pertença a Cristo, o Ungido. Como o perfume se espalha, o cristão ungido deve exalar o «bom perfume de Cristo» (2Cor 2,15).
A fronte — a unção é feita na testa, lugar visível: o crismado não deve envergonhar-se de Cristo, mas confessá-lo abertamente diante do mundo.
A imposição das mãos — gesto bíblico de transmissão do Espírito e da bênção, que liga a Confirmação ao agir dos Apóstolos.
O selo — a Escritura chama o dom do Espírito de «selo» (Ef 1,13). O selo marca a pertença, autentica e protege. O crismado é selado como propriedade de Deus, consagrado ao seu serviço para sempre.
A paz — o gesto final significa a comunhão e a missão: quem recebe o Espírito é enviado em paz a ser testemunha.
VIII. A Igreja, os Padres e os santos
A Igreja e os Concílios
A Igreja sempre reconheceu na imposição das mãos dos Apóstolos (At 8 e At 19) a origem do sacramento da Confirmação, distinto do Batismo (cf. CIC 1288). Muito cedo, a essa imposição das mãos uniu-se a unção com o Crisma, atestada já no séc. III (por exemplo na Tradição Apostólica, atribuída a Santo Hipólito). O Concílio de Florença (1439) e o Concílio de Trento enumeraram a Confirmação entre os sete sacramentos, defenderam a sua instituição por Cristo e condenaram quem a tivesse por mera cerimônia vazia.
Oriente e Ocidente guardaram duas tradições legítimas — a unidade da iniciação (Oriente) e a ligação ao bispo (Ocidente) —, mas a mesma fé. O Concílio Vaticano II (Lumen Gentium, 11; Sacrosanctum Concilium, 71) pediu a revisão do rito, para manifestar melhor a sua ligação com toda a iniciação cristã; e o Papa Paulo VI, na constituição apostólica Divinae Consortium Naturae (1971), fixou o rito renovado e a fórmula atual — «Recebe, por este sinal, o Espírito Santo, o Dom de Deus» —, tomada da antiga tradição bizantina.
Os Santos Padres
«Depois de sair da fonte, sois ungidos com o Crisma: unção pela qual Cristo vos tornou participantes do seu nome. Ungidos, tornastes-vos cristos, isto é, ungidos.»
— São Cirilo de Jerusalém, Catequeses mistagógicas
«Recebe o sinal espiritual, o sábio temor, a santa piedade: guarda o que recebeste. Deus Pai te selou, Cristo o Senhor te confirmou e deu em teu coração o penhor do Espírito.»
— Santo Ambrósio, Os sacramentos
«A carne é ungida para que a alma seja consagrada; a carne é selada para que a alma seja fortalecida.»
— Tertuliano, Sobre a ressurreição da carne
Para os Padres, Batismo e Confirmação são dois momentos de um só mistério: a água dá a vida; o Espírito a sela, a amadurece e a fortalece para o testemunho.
Os santos
«Adquire o Espírito Santo, e milhares ao teu redor serão salvos.»
— São Serafim de Sarov
«Não tenhais medo! Abri, de par em par, as portas a Cristo!»
— São João Paulo II
São Francisco de Assis, movido pelo Espírito, teve a coragem de confessar Cristo até diante do Sultão: imagem viva do crismado que não teme dar testemunho.
IX. O Catecismo e os documentos
Números-chave do Catecismo: CIC 1285-1292 — a Confirmação na economia da salvação; os dois ritos (Oriente e Ocidente) e a sua história. CIC 1293-1301 — os sinais e o rito: a unção com o Crisma, a imposição das mãos, a fórmula e o seu sentido. CIC 1302-1305 — os efeitos da Confirmação (os cinco frutos da graça) e o caráter indelével. CIC 1306-1314 — quem recebe e como preparar-se; o estado de graça e o padrinho. CIC 1315-1321 — quem administra o sacramento (o bispo e, em certos casos, o presbítero).
X. Questões que atravessam qualquer reflexão sobre a Crisma
O Batismo não basta? Por que é preciso a Crisma?
O Batismo já dá a vida nova e o Espírito, mas a Confirmação a leva à plenitude: enraíza mais na filiação divina, une mais firmemente a Cristo e dá a força especial do Espírito para testemunhar a fé. É como o Batismo que amadurece: assim como Pentecostes completou a Páscoa para os Apóstolos, a Crisma completa a iniciação do cristão. Por isso a Igreja ensina que os fiéis têm a obrigação de recebê-la.
A Crisma é uma «formatura» da catequese ou o sacramento da maturidade?
Não no sentido de simples decisão humana ou de encerramento de um curso. É antes dom de Deus, que capacita a viver e testemunhar a fé. A «maturidade» que ela confere é a da graça, não meramente a da idade. Por isso não se deve adiá-la como prêmio, nem tratá-la como o fim do caminho — ela é, ao contrário, um novo começo na missão.
Por que, em geral, só o bispo crisma?
Para manifestar o vínculo do crismado com a Igreja apostólica e a sua missão universal: o bispo é sucessor dos Apóstolos, que davam o Espírito pela imposição das mãos. Assim, cada Crisma liga o fiel a toda a Igreja. Em certos casos (batismo de adultos, perigo de morte, delegação), também o presbítero confirma — mas sempre com o Crisma consagrado pelo bispo.
Já fui crismado, mas não sinto diferença. O sacramento «funcionou»?
Sim: o sacramento válido sempre confere a graça e imprime o caráter, independentemente do que se sente. A graça, porém, é como uma semente: precisa ser cultivada pela oração, pelos sacramentos e pela vida de fé para dar frutos. Muitos crismados «adormecidos» redescobrem, anos depois, a força do Espírito que já tinham recebido. Nunca é tarde para reavivar esse dom (cf. 2Tm 1,6).
Ao fim do caminho
Chegando ao fim deste percurso, uma certeza se destaca: a Crisma é o Pentecostes de cada cristão. O mesmo Espírito que desceu em línguas de fogo sobre os Apóstolos desce, no silêncio da unção com o Crisma, sobre cada crismado — e produz, se encontrar um coração disponível, a mesma transformação: do medo à coragem, do fechamento à missão, da fé herdada à fé professada.
Reavivar esse dom é tarefa de toda a vida. Não é preciso esperar o extraordinário: basta deixar o Espírito trabalhar no cotidiano — na oração, nos sacramentos, na docilidade a cada moção boa. Pouco a pouco, os sete dons se traduzem em frutos, e a Crisma, que começou num só gesto, continua a dar colheita durante décadas.
«Vinde, Santo Espírito, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor.»
— Oração da Igreja ao Espírito Santo
Referências
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 1990. Passagens citadas: Is 11,1-2; Jl 3,1-2; Lc 12,8-12; Jo 14,15-17.26; 15,16; 16,13; At 1,8; 2,1-4; 8,14-17; 19,5-6; Rm 8,14-17; 2Cor 1,21-22; 2,15; Gl 5,22-23; Ef 1,13-14; 2Tm 1,6.
IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2000. Números citados: 1285-1321; 1832.
CONCÍLIO VATICANO II. Lumen Gentium, 11; Sacrosanctum Concilium, 71. Roma, 1964-1965.
PAULO VI. Constituição Apostólica Divinae Consortium Naturae. Roma, 1971.
IGREJA CATÓLICA. Ritual da Confirmação.
CONCÍLIOS DE FLORENÇA (1439) e TRENTO (séc. XVI). Doutrina sobre os sete sacramentos.
CIRILO DE JERUSALÉM, São. Catequeses mistagógicas.
AMBRÓSIO, Santo. Os sacramentos.
TERTULIANO. Sobre a ressurreição da carne.
HIPÓLITO DE ROMA, Santo. Tradição Apostólica (séc. III).
SERAFIM DE SAROV, São. Diálogos espirituais.
JOÃO PAULO II, São. Homilia de início de pontificado (1978).
FRANCISCO DE ASSIS, São. Admonições e Regra.